Notas
Índice cronológico de todas as notas do Scholion.
2131 notas · última:
Os metafísicos de Tlön não buscam a verdade nem a verossimilhança: buscam o assombro
Caracterização do pensamento de Tlön no conto homônimo (1940). A frase é proposta para a metafísica como gênero literário.
Há na felicidade presente uma gota da baba de Caim
Capítulo VI de Memórias Póstumas. Brás Cubas avisa que não se confie no instante feliz, contaminado pelo gérmen fratricida — referência a Caim que Machado retoma em outras passagens.
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria
Frase final de Memórias Póstumas (cap. CLX, 'Das Negativas'). Brás Cubas balanceia a vida e fecha com a única negativa que considera ganho — a interrupção da cadeia humana.
E agora, José?
Refrão de 'José', poema-título do livro homônimo (1942). Pergunta sem resposta dirigida ao sujeito comum diante do colapso de todos os apoios.
Cometi o pior dos pecados que um homem pode cometer. Não fui feliz
Verso de abertura do soneto El remordimiento (La moneda de hierro, 1976). Aos 76 anos, Borges identifica como pecado o que a tradição cristã não classifica como tal.
Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo
Versos do poema-título 'Sentimento do Mundo' (1940). Drummond formula a desproporção entre o que o sujeito pode carregar e o que ele sente.
Minha memória, senhor, é como depósito de lixo
Funes descreve a própria memória ao narrador em Funes el memorioso (1942). A imagem é negativa, não celebratória.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra
Aforismo do capítulo CXIX de Memórias Póstumas. Brás Cubas inverte a expressão coloquial 'matar o tempo' (ocupar o ócio) e mostra a assimetria entre verbo metafórico e verbo literal.
Suporta-se com paciência a cólica do próximo
Aforismo do capítulo CXIX de Memórias Póstumas — 'Parêntesis'. Brás Cubas alista máximas que diz ter rejeitado da publicação; este é dos mais corrosivos sobre a empatia.
O original é infiel à tradução
Aforismo borgeano sobre a tradução de Vathek de Beckford (1943), em Otras inquisiciones. Inverte a polaridade tradicional entre original e cópia.
Não serei o poeta de um mundo caduco
Verso de abertura de 'Mãos Dadas', do livro 'Sentimento do Mundo' (1940). Recusa programática da poesia evasiva diante do tempo presente.
Escrever não é mais que um sonho dirigido
Frase do prólogo de El informe de Brodie (1970). Borges define a escrita por contraste com o sonho involuntário que a antecede.
Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante
Capítulo XXVII de Memórias Póstumas. Brás Cubas corrige Pascal: o homem não é frágil meditativo, é defeito tipográfico que pensa. A imagem desloca o eixo da reflexão sobre o humano.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus
Verso de abertura de 'Os Ombros Suportam o Mundo', do livro 'Sentimento do Mundo' (1940). Diagnóstico sobre o esgotamento da invocação metafísica diante da catástrofe histórica.
Uma rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos
Definição do romance de Ts'ui Pen em El jardín de senderos que se bifurcan (1941). Borges enuncia a estrutura de muitos-mundos décadas antes de Hugh Everett.
Pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro
Capítulo II de Memórias Póstumas — 'O Emplasto'. Brás Cubas descreve o nascimento da sua ideia fixa, o emplasto anti-hipocondríaco que pretende dar fama universal e que termina por matá-lo.
Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras
Versos de 'Cidadezinha Qualquer', poema de 'Alguma Poesia' (1930). Retrato seco da estagnação interiorana, sem sentimentalismo.
Não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural
Tese de El idioma analítico de John Wilkins (1942), recolhida em Otras inquisiciones. O ensaio é a fonte da enciclopédia chinesa que abre As palavras e as coisas de Foucault.
João amava Teresa que amava Raimundo
Verso inicial de 'Quadrilha', poema de 'Alguma Poesia' (1930). Catálogo de amores cruzados em sete versos, virou meme antes do meme existir.
Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga
Capítulo VII de Memórias Póstumas — 'O Delírio'. A figura imensa que aparece a Brás Cubas recusa nome unívoco e se declara mãe e inimiga, fórmula que sintetiza a leitura machadiana da existência.
Sou um defunto autor, para quem a campa foi outro berço
Capítulo I de Memórias Póstumas, justificando a inversão do começo. O narrador defende a escolha de abrir pelo fim — o sepulcro como novo nascimento — e prefere a fórmula 'defunto autor' a 'autor defunto'.
Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo
Estrofe do 'Poema de Sete Faces', primeiro poema de 'Alguma Poesia' (1930). A rima Raimundo/mundo encena o limite entre o nome próprio e o cosmos.
A história universal é a história de algumas metáforas
Frase de La esfera de Pascal (1951), recolhida em Otras inquisiciones (1952). Borges argumenta que a invenção de imagens é mais rara que a invenção de teses.
O tempo é a substância de que sou feito
Encerramento do ensaio Nueva refutación del tiempo (1947). Borges nega o tempo durante todo o ensaio e abandona a negação na última frase.
No meio do caminho tinha uma pedra
Verso de abertura do poema homônimo, publicado em 'Alguma Poesia' (1930), livro de estreia de Drummond. Causou um dos maiores escândalos da crítica modernista.
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas
Dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Inverte o destinatário convencional da dedicatória — não a um leitor vivo, mas ao verme que come o cadáver — e anuncia a chave do livro.
Hemos de buscar um terceiro tigre
Conclusão de El otro tigre (El Hacedor, 1960). O tigre nomeado deixa de ser o tigre de carne, e o poema persegue um animal sempre adiante da palavra.
Olhar o rio feito de tempo e água
Verso de abertura de Arte poética (El Hacedor, 1960). Borges converte a metáfora heraclitiana em programa estético em quatro estrofes.
Compreendeu que ele também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo
Linha final de Las ruinas circulares (1940). O mago que sonhou um homem descobre que ele próprio é sonho de outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página
Frase final de Borges y yo (1957, recolhida em El Hacedor 1960). O texto curto separa a pessoa privada do escritor público e termina sem decidir entre os dois.
Devo à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta de Uqbar
Frase de abertura de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (1940). Toda a fábula epistemológica do conto está cifrada nesses dois objetos.
Um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos
Definição do Aleph no conto homônimo (1945). Borges constrói um objeto que viola a topologia ordinária e descreve a vertigem de vê-lo.
A fama é uma forma — talvez a pior — de incompreensão
Aforismo enxertado em Pierre Menard (1939). Borges o atribui ao próprio Menard ao discutir como o Quixote sobreviveu à popularidade.
Não queria compor outro Quixote — o que é fácil — mas o Quixote
Frase central de Pierre Menard, autor do Quixote (1939). Menard quer reescrever palavra por palavra o livro de Cervantes, e Borges desdobra o problema da identidade textual.
Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair
Frase do conto Funes el memorioso (1942). O narrador resume o que Funes não consegue fazer: a memória total impede o pensamento, que exige perda.
Os espelhos e a cópula são abomináveis
Frase atribuída a um heresiarca de Uqbar em Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (1940). Borges a coloca na boca de Bioy Casares como citação enciclopédica.
O universo (que outros chamam a Biblioteca)
Frase inicial de La biblioteca de Babel (1941). Borges define o universo como uma biblioteca infinita de galerias hexagonais, anos antes da topologia se popularizar.
Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca
Verso de abertura do Poema de los dones (1960). Borges escreve no momento em que assume a Biblioteca Nacional argentina ao perder a vista, e a ironia organiza o poema.
Se você quer ir fundo, não precisa ir longe
Cultura e Valor, p. 50e (1946). Anotação que condensa o ethos do trabalho intelectual de Wittgenstein: profundidade não é deslocamento.
O homem tem que despertar para o assombro — e talvez também os povos. A ciência é um meio de adormecê-lo de novo
Cultura e Valor, p. 5e. Wittgenstein opõe assombro a ciência. A explicação científica não responde ao espanto; apaga o que o tornaria possível.
