Notas
Índice cronológico de todas as notas do Scholion.
1929 notas · última:
There are two tragedies in life. One is not to get your heart's desire. The other is to get it
Fala de Mendoza no Ato IV de Man and Superman (1903). Frequentemente confundida com versão atribuída a Oscar Wilde em Lady Windermere's Fan.
If you begin by sacrificing yourself to those you love, you will end by hating those to whom you have sacrificed yourself
Maxim de Maxims for Revolutionists, apêndice de Man and Superman (1903). Sob a rubrica Self-Sacrifice.
Disobedience, the rarest and most courageous of the virtues, is seldom distinguished from neglect
Maxim de Maxims for Revolutionists, apêndice de Man and Superman (1903). Sob a rubrica Virtues and Vices.
When a man wants to murder a tiger he calls it sport: when the tiger wants to murder him he calls it ferocity
Maxim 62 de Maxims for Revolutionists, apêndice de Man and Superman (1903). Sob a rubrica Crime and Punishment.
He who can, does. He who cannot, teaches
Maxim do apêndice Maxims for Revolutionists, em Man and Superman (1903), sob a rubrica Education.
Marriage is popular because it combines the maximum of temptation with the maximum of opportunity
Maxim do apêndice Maxims for Revolutionists, em Man and Superman (1903), sob a rubrica Marriage.
Democracy substitutes election by the incompetent many for appointment by the corrupt few
Maxim de Maxims for Revolutionists, apêndice de Man and Superman (1903). Crítica fabiana às formas degeneradas de democracia eleitoral.
Liberty means responsibility. That is why most men dread it
Maxim do apêndice Maxims for Revolutionists, em Man and Superman (1903), sob a rubrica Liberty and Equality.
The reasonable man adapts himself to the world: the unreasonable one persists in trying to adapt the world to himself. Therefore all progress depends on the unreasonable man
Maxim 124 do apêndice Maxims for Revolutionists, em Man and Superman (1903). Shaw inverte a noção comum de razoabilidade para defender o inadaptado como motor histórico.
'Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6'
Luis Fernando Veríssimo em 'Time dos Sonhos — Paixão, poesia e futebol' (2011), sobre o estatuto especial da paixão futebolística entre as paixões da infância.
'Nada separa as classes como a língua. Fora a renda, claro'
Luis Fernando Veríssimo em entrevista a Luiz Costa Pereira Jr. em outubro de 2005, sobre o papel da fala e do vocabulário como marcador de classe no Brasil.
O bordel como heterotopia: tempo suspenso e espaço outro
No podcast Vox, Michel Alcoforado descreve o bordel como espaço sem relógio, submerso noutra lógica de tempo, em paralelo com shopping e igreja. A formulação cruza com o conceito foucaultiano de heterotopia: lugares reais que invertem ou contestam o resto da sociedade. Foucault cita o bordel como exemplo canônico em 'Des espaces autres'.
O amor como risco: o cliente fixo na fronteira do comercial
Inversão analítica formulada no podcast Vox: na sociedade comum o amor é projeto; na prostituição é risco — perigo de confundir cliente fixo com namorado e contaminar a relação comercial com vínculo afetivo. A figura do cliente fixo materializa a fronteira entre relação pessoal e relação comercial. Cruza com a sociologia da intimidade negociada (Zelizer, Hochschild).
Subalternidade como performance
Conceito articulado por Natânia Lopes em Cabaré: a puta executa de saída a postura tradicional da mulher subalterna — carinhosa, atenciosa, chamando o cliente de amor — como técnica de trabalho, não como submissão real. A doçura é dispositivo, não acomodação. Cruza com Goffman, Butler e a antropologia da performance.
Bordas porosas: pureza e poluição na sociedade indiana
Na cosmologia hindu tradicional, as bordas dos corpos não são lacradas: pessoas são porosas, e o toque produz contaminação recíproca de pureza e impureza entre castas. A regra explica a estrutura do casamento arranjado endógamo. Citada por Fabíola Gomes no podcast Vox; tem ancoragem teórica em Mary Douglas e Louis Dumont.
O casamento como o que faz sociedade
Tese antropológica clássica: o casamento não é instituição entre outras, é o mecanismo elementar pelo qual grupos humanos se constituem como sociedade através da troca obrigatória entre eles. Citada no podcast Vox por Fabíola Gomes para explicar por que, na Índia, o casamento não pode ser entregue à escolha individual. Vinculada à teoria da aliança de Lévi-Strauss.
A puta como 'a outra': alteridade dos afetos
Conceito de Natânia Lopes em Cabaré: a puta no trabalho é estruturalmente outra — outra de si mesma, outra da moça de família, outra do bandido. Faz parte do mesmo sistema cultural que produz a esposa: é o feminino-outro que sustenta por contraste o feminino-de-família. O chip do mal materializa essa duplicação no plano da infraestrutura.
Necessidade como álibi moral
Dispositivo simbólico que reduz o peso de julgamento sobre uma ação reprovável quando ela aparece como resposta a uma carência objetiva. Examinado por Michel Alcoforado e Natânia Lopes no podcast Vox no contexto da prostituição: tanto o cliente que diz 'ajudar as meninas' quanto a puta que justifica o programa pela urgência alimentar operam o mesmo mecanismo, em pontas opostas.
Indivíduo e divíduo: pessoa indivisível e pessoa relacional
Oposição conceitual da antropologia comparada. O indivíduo ocidental moderno é pessoa indivisível, dotada de núcleo interno autônomo. O divíduo da antropologia da Ásia e da Melanésia é pessoa permeável, composta de substâncias e relações que circulam. Distinção citada por Fabíola Gomes no podcast Vox para fundamentar o contraste entre individualismo e holismo.
Sabotagem da troca: ganhar o máximo dando o mínimo
Conceito-eixo do livro Cabaré, de Natânia Lopes. Descreve o princípio do trabalho da puta como recusa programática da equivalência justa que sustenta o circuito da dádiva mausssiana: ganhar o máximo dando o mínimo, em revanchismo de gênero contra a dívida histórica dos homens com as mulheres. Par antagônico da teoria da dádiva.
Amor erótico não é amor romântico
Distinção antropológica entre o amor erótico — atração física e paixão sensorial atestadas em quase todas as culturas — e o amor romântico, complexo ideológico ocidental específico que toma a paixão e a inscreve em roteiro de escolha pessoal e exclusividade conjugal. Citada por Fabíola Gomes no podcast Vox para cortar a objeção de que a paixão amorosa é universal.
Amor romântico como complexo ideológico
O amor romântico ocidental não é sentimento espontâneo mas conjunto historicamente formado de ideias, regras e expectativas. Funciona como complexo ideológico que organiza a escolha conjugal e a autorrealização individual desde o romantismo. Citado por Fabíola Gomes no podcast Vox como ponto de partida para o contraste com a Índia.
'No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa'
Frase de Luis Fernando Veríssimo publicada na revista Exame em 1993, sobre a tendência brasileira de superar mínimos com novos mínimos.
'A minha musa inspiradora é o meu prazo de entrega'
Resposta de Luis Fernando Veríssimo à revista IstoÉ (edição 1642) sobre o método de trabalho do cronista que escreveu coluna diária por décadas.
A Velhinha de Taubaté — 'a última pessoa do Brasil que ainda acreditava no governo'
Personagem criada por Luis Fernando Veríssimo em crônica de 1983, durante o governo Figueiredo. A definição da velhinha como 'única que ainda acreditava' virou rótulo político recorrente nas décadas seguintes.
'De cada cinco textos atribuídos a mim na internet, ao menos quatro não fui eu que escrevi'
Luis Fernando Veríssimo à revista Playboy em 2011, sobre o volume de textos apócrifos que circulam com seu nome. A frase é o ponto cego inevitável de qualquer coletânea dele.
Be careful what you water your dreams with (misatribuição a Lao Tzu)
Texto longo de auto-ajuda atribuído a Lao Tzu. Origem rastreada por Wikiquote a Aileen Miga e Janice Hughes, 'Inspired Wealth' (2004).
Kindness in words creates confidence... (misatribuição a Lao Tzu)
Tríade motivacional atribuída a Lao Tzu em coletâneas. Não consta no Dào Dé Jīng nem no corpus taoísta clássico. Origem moderna não documentada.
Life is a series of natural and spontaneous changes (misatribuição a Lao Tzu)
Texto motivacional circula como tradução do Dào Dé Jīng. Não consta em nenhum capítulo do livro. Origem moderna não identificada.
Care about what other people think and you will always be their prisoner (misatribuição a Lao Tzu)
Frase circula como Lao Tzu mas é paráfrase de Stephen Mitchell (1988) sobre o cap. 9 do Dào Dé Jīng. Não é tradução.
What I hear I forget; what I see I remember; what I do I understand (misatribuição a Lao Tzu)
Frase circulando como Lao Tzu, Confúcio ou Xunzi. A formulação tem raiz no Xunzi (荀子, séc. III a.C.), mas a versão tripartida é paráfrase pedagógica moderna.
When the student is ready, the teacher will appear (misatribuição a Lao Tzu)
Frase atribuída a Lao Tzu e ao Buda em coletâneas modernas. Origem rastreável a Mabel Collins, 'Light on the Path' (1886), texto teosófico inglês.
報怨以德 — Responder ao ressentimento com virtude
Dào Dé Jīng, cap. 63. Linha curta que entrou em rota de colisão com o confucionismo: Confúcio (LY 14.34) responde explicitamente que se deve retribuir o mal com justiça, não com virtude.
人之生也柔弱,其死也堅強 — O vivo é mole e fraco, o morto é duro e firme
Dào Dé Jīng, cap. 76. Observação fisiológica como argumento cosmológico: o duro pertence à morte, o flexível à vida.
上善若水 — A suprema bondade é como a água
Dào Dé Jīng, cap. 8. Imagem inaugural da água como modelo do dé taoísta: beneficia os seres sem competir, e habita o lugar que todos desprezam.
反者道之動 — A reversão é o movimento do Tao
Dào Dé Jīng, cap. 40. Quatro frases curtas, núcleo metafísico do livro: o Tao se move por inversão; o ser nasce do não-ser.
善行無轍迹 — O bom caminhante não deixa rastros
Dào Dé Jīng, cap. 27. Cinco imagens da perícia taoísta: caminhar, falar, calcular, fechar, atar. Em todas, ausência do gesto técnico aparente.
知足不辱 — Quem sabe o que basta não conhece humilhação
Dào Dé Jīng, cap. 44. Três perguntas — fama ou corpo, corpo ou riqueza, ganho ou perda — fechadas pela máxima do zhīzú (saber o suficiente).
道法自然 — O Tao se rege pelo que é por si mesmo
Dào Dé Jīng, cap. 25. Cadeia cosmológica: homem segue terra, terra segue céu, céu segue Tao, Tao segue ziran. Termo central do taoísmo.
天下莫柔弱於水 — Nada no mundo é mais brando e fraco que a água, e nada vence o duro como ela
Dào Dé Jīng, cap. 78. Imagem central da água como metáfora do poder do flexível sobre o rígido. Núcleo da política taoísta da maleabilidade.
