Notas
Índice cronológico de todas as notas do Scholion.
2131 notas · última:
Quem está com fome fica surdo até mesmo
Frase de 'Um Lugar ao Sol' (1936). Aforismo materialista sobre como a privação física fecha os canais de escuta moral e estética.
Entre as diversas formas de mendicância, a mais humilhante é a do amor implorado
Aforismo de 'O Avesso das Coisas' (Record). Drummond classifica o pedido de afeto como pior que o pedido material.
Você gosta de romances?
Pergunta de Conceição a Nogueira no conto 'Missa do Galo' (1893, recolhido em Páginas Recolhidas, 1899). Frase aparentemente inocente que carrega o jogo erótico do diálogo noturno.
Todos morrem. Os ricos e os pobres, os inteligentes e os estúpidos
Constatação igualitária em 'Incidente em Antares' (1971). A morte como única equalização de uma sociedade que o romance retrata como hierárquica.
A boca beijada não guarda a marca do êxtase
Aforismo de 'O Avesso das Coisas' (Record). O corpo não retém prova material da experiência amorosa, e isso é constitutivo dela.
A progressão social repousa essencialmente sobre a morte
Tese sociológica em 'Incidente em Antares' (1971). Os vivos são sempre governados pelos mortos, e o romance dos defuntos insepultos é, em parte, sua ilustração.
A Igreja do Diabo
Conto de 1883, recolhido em Histórias sem Data (1884). O Diabo funda igreja em que pecados viram virtudes; descobre depois que os fiéis pecam às escondidas, isto é, transgridem o pecado pela virtude.
A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade
Aforismo de 'O Avesso das Coisas' (Record). Inversão da imagem usual da amizade como ponte e formulação dela como filtro.
No Brasil devemos ser pessimistas a prazo curto e otimistas a prazo longo
Frase atribuída por Veríssimo a uma personagem de 'Incidente em Antares' (1971). Diagnóstico temporal sobre a política brasileira que sobreviveu ao romance.
Cada criatura humana traz duas almas consigo
Tese central de 'O Espelho' (1882), conto subtitulado 'Esboço de uma nova teoria da alma humana'. Jacobina expõe a doutrina das duas almas: interior e exterior — a segunda formada pelos signos sociais.
Amor e seu Tempo (As Impurezas do Branco, 1973)
Poema 'Amor e seu Tempo', incluído em 'As Impurezas do Branco' (1973). Drummond formula o amor maduro como saber tardio, posterior à ciência herdada.
Gosto da vida. É um desafio permanente
Resposta ao absurdo em 'Incidente em Antares' (1971). Veríssimo recusa o niilismo e propõe a invenção de sentido como tarefa, não constatação.
Amor é bicho instruído
Verso de 'O Amor Bate na Porta', poema de 'Brejo das Almas' (1934). Drummond classifica o amor como espécie animal, e como espécie aprendiz.
A ciência é o meu único emprego; Itaguaí é o meu universo
Frase de Simão Bacamarte em 'O Alienista' (1882), conto que abre Papéis Avulsos. Sintetiza a ambição totalizante do médico e prepara a sátira machadiana sobre a relação entre saber e poder.
Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia
Epígrafe e primeira frase de 'A Cartomante' (1884). Machado abre o conto citando Hamlet a Horácio e estabelece a chave do enredo: a tensão entre razão cética e o que escapa dela.
Comunista é o pseudônimo que os conservadores
Frase de 'Incidente em Antares' (1971). Define 'comunista' como rótulo polêmico, não conceito político, em romance que circulou sob a ditadura.
A natureza não faz milagres, faz revelações
Aforismo registrado em 'O Avesso das Coisas' (Record). Distingue duas operações que costumam ser confundidas no discurso sobre o natural.
Quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me
Frase do capítulo final de Dom Casmurro (CXLVIII, 'E bem, e o resto?'). Bento Santiago dá a versão definitiva sobre Capitu e Escobar — sem provas, com fórmula que delega a culpa ao destino.
O Brasil é um país novo que se imagina velho
Aforismo registrado em 'O Avesso das Coisas' (Record, 1988). Diagnóstico breve sobre a discrepância entre idade histórica e auto-imagem do país.
Acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo
Programa estético-político formulado em 'Solo de Clarineta' (1973). Define a tarefa do escritor em tempos de atrocidade como guarda contra a escuridão.
Olhos de ressaca
Capítulo XXXII de Dom Casmurro. Bento Santiago retoma a sentença de José Dias sobre os olhos de Capitu e a substitui por figura marítima — ressaca, fluido que puxa para dentro.
O médico sai do quarto n.º 122
Primeira linha de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938). Abre o romance numa cena hospitalar que será desvelada como o leito de morte de Olívia.
Há um certo gosto em pensar sozinho
Frase do livro de prosa 'Passeios na Ilha' (1952). Defesa breve e seca do pensamento solitário, sem retórica anti-social.
Olhos de cigana oblíqua e dissimulada
Capítulo XXV de Dom Casmurro. José Dias descreve assim os olhos de Capitu, num passeio público. A frase carrega o juízo social do agregado e ressoa pelo livro inteiro como sentença.
Olha as estrelas. Enquanto elas brilharem haverá esperança na vida
Frase de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938) atribuída a Olívia. Articula esperança a um horizonte cósmico que excede a biografia do sujeito.
Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar
Verso de Drummond registrado em 'Nova Reunião' (1985), volume 2, página 537. A formulação trabalha a singularidade como impossibilidade de equivalência.
Se eu pudesse viver novamente minha vida — não é de Borges
O poema Instantes ('Si pudiera vivir nuevamente mi vida') circula no Brasil atribuído a Borges desde os anos 1990. O autor original é Don Herold, em texto de 1953. Maria Kodama declarou apócrifo.
Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente
Definição de felicidade que aparece em 'Olhai os Lírios do Campo' (1938). Não é estado afetivo, é certeza moral sobre o uso do tempo de vida.
Estou preparando uma canção / em que minha mãe se reconheça
Versos iniciais de 'Canção Amiga', poema de 'Novos Poemas' (1948). Endereço explícito a quem o sujeito quer alcançar com a poesia.
A vida é uma ópera
Capítulo IX de Dom Casmurro. Marcolini, velho tenor italiano, expõe a Bentinho a teoria da vida-ópera: Deus é o poeta do libreto, Satanás é o maestro da partitura, a Terra é teatro de execução.
Pensar, analisar, inventar não são atos anômalos: são a respiração normal da inteligência
Frase de Pierre Menard (1939) inserida no comentário do narrador sobre o trabalho de Menard. Define cognição como função, não exceção.
Eu nunca vi o mar
Verso de abertura de 'Lagoa', poema de 'Alguma Poesia' (1930). Confissão da ignorância geográfica do menino interiorano como ponto de partida da imaginação.
Dom Casmurro
Capítulo I de Dom Casmurro explica a origem do apelido — vingança de um poeta que tomou cochilo do narrador como ofensa. Machado avisa, na primeira página, que o título do livro nasce de mal-entendido.
Humanitas é o princípio
Quincas Borba apresenta o Humanitismo como sistema 'destinado a destruir todos os outros sistemas'. Humanitas é descrita como substância única, universal, eterna, indivisível — princípio que Machado parodia.
Esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto
Epílogo de El Hacedor (1960). Borges fecha o livro com a imagem do homem que mapeia o mundo e descobre desenhar a si mesmo.
Amar o perdido / deixa confundido / este coração
Versos iniciais de 'Memória', poema de 'Claro Enigma' (1951). Formulação cifrada da relação entre afeto e ausência, na fase metafísica de Drummond.
Uma flor nasceu na rua!
Verso central de 'A Flor e a Náusea', poema de 'A Rosa do Povo' (1945). A flor que rompe o asfalto como imagem-síntese da resistência possível em tempo de catástrofe.
Nossa mente é porosa para o esquecimento
Última observação do narrador em El Aleph (1945). Depois de ver o infinito, o que se perde é o rosto de uma pessoa específica.
Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas
Capítulo VI de Quincas Borba (1891). Resumo do Humanitismo, doutrina parodiada por Machado: parábola das duas tribos famélicas em torno de um campo de batatas explica por que a guerra é 'conservação' e a paz, 'destruição'.
Penetra surdamente no reino das palavras
Verso central de 'Procura da Poesia', poema de 'A Rosa do Povo' (1945). Programa metalinguístico que recusa a poesia como auto-expressão.
