Notas
Índice cronológico de todas as notas do Scholion.
1929 notas · última:
A teoria da dádiva: dar, receber, retribuir (Mauss, 1925)
Em Essai sur le don (1925), Mauss formula a teoria da dádiva como fato social total: nas sociedades arcaicas, a troca opera por três obrigações encadeadas — dar, receber, retribuir. O circuito do dom é o que cola os indivíduos ao grupo.
'Más vale ser touro brocha que boi tesudo'
Provérbio campeiro atribuído ao Analista de Bagé (Luis Fernando Veríssimo, 1981). Em registro rural, articula valor da potência mesmo desativada sobre potência impossível.
O amor romântico como sombra persistente
Adriana Piscitelli encerra: o amor romântico aparece nos séculos XVIII-XIX, difundido pelos romances. Hoje persiste como sombra na pedagogia do Netflix — casais homoeróticos, sim, mas o amor segue romântico.
Tinder também ensina a fugir do sugar
Adriana Piscitelli observa que o mesmo Tinder onde se ofertam relações sugar está cheio de perfis masculinos performando o oposto — "só divide a conta", "só encontro igualitário". A tecnologia amplifica simultaneamente os dois pólos.
Bolsa Família, o italiano dispensado e a reviravolta parcial
Adriana Piscitelli sobre o caso de campo: garota cresce já dentro do Bolsa Família, dispensa o italiano por uma garota do bairro. Acesso a recursos reconfigura o mercado afetivo — mas só enquanto o acesso permanece.
Estruturas que não mudam, casais que mudam
Adriana Piscitelli recusa narrativa redentora e denúncia chapada: no plano coletivo, casamentos transnacionais não desmontam hierarquias de gênero; no plano individual, podem produzir relações domésticas mais igualitárias.
Mark Hunter: o amor pode nascer dos bens
Mark Hunter (Toronto): o amor pode nascer do coração, mas pode igualmente nascer dos bens trocados — em ambos os casos é amor, sem hierarquia moral entre as origens. Tese-chave para pensar a manutenção do poder na ajuda.
O amor é sempre material, sobretudo onde falta
Adriana Piscitelli e Michel Alcoforado: a materialidade existe em todas as classes, mas só é confessada onde a pobreza não permite o autoengano. Quanto mais escassos os recursos, mais visível a materialidade do afeto.
Zelizer e o paradoxo do anel desinteressado
Adriana Piscitelli evoca Viviane Zelizer (A Negociação da Intimidade): a interpenetração entre dinheiro e intimidade é permanente, e o trabalho cultural está em fazer as delimitações que sustêm a ficção do amor desinteressado.
Sugar versus ajuda: duas misturas, dois julgamentos
Adriana Piscitelli traça a distinção que organiza o episódio: sugar é tolerada como contrato/performance, ajuda é escandalizada por misturar afeto e interesse de fato. A mesma cultura que tolera sugar subalterniza a ajuda.
As Cobras de Veríssimo — duas serpentes filosofando sobre o universo
Tira de quadrinhos publicada por Luis Fernando Veríssimo entre 1975 e 1997 em jornais brasileiros. Duas serpentes sem nome comentam Deus, futebol, política e a insignificância humana.
Quem são os "outros" que não amariam de verdade
Adriana Piscitelli responde quem são os "outros" que classificamos como menos civilizados por não casarem por amor: África do Sul, Caribe, favelas. Operação que mantém o nós branco e de classe média como portador legítimo do amor romântico.
Neoliberalismo como cultura, amor como política
Adriana Piscitelli: o amor é uma forma de governança neoliberal. Não como modelo econômico, mas como cultura que organiza vida e subjetividade — individualismo, competitividade, metrificação. Logo, amar é também um ato político.
Homogamia e a ilusão da escolha no Tinder
Adriana Piscitelli sobre William Goody: mecanismos informais orientam o casamento entre iguais (classe, religião, raça). Michel traduz para o Tinder — "você escolhe, mas escolheu porque deixaram você escolher quem escolheu".
O anel de brilhantes e a hipocrisia do amor desinteressado
Michel Alcoforado abre o episódio Universo Sugar com o anel de noivado: ostentado, comparado entre amigas, avaliado pelo investimento — e ainda assim chamado de prova de amor desinteressado.
'Pela cabeleira, o julgamento é canhestro: pode ser china ou maestro'
Comparação rimada do Analista de Bagé (Luis Fernando Veríssimo, 1981). Em registro de provérbio campeiro, faz crítica à inferência social baseada em aparência.
Ed Mort: 'É o que está escrito na plaqueta'
Refrão narrativo de Ed Mort, detetive criado por Luis Fernando Veríssimo em 1979. Fórmula de identificação que parodia o hard-boiled americano em registro de Copacabana.
'Pra besteira e financiamento do Banco do Brasil, sempre se arranja um jeito'
Sentença do Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Veríssimo (1981). Comparação direta entre o ímpeto subjetivo e o crédito estatal brasileiro.
'Roda de carreta chega cantando e se vai gemendo'
Comparação campeira atribuída ao Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Veríssimo (1981). Imagem de origem rural usada com função técnica psicanalítica.
'Se todo mundo fosse gaúcho, ser gaúcho não teria vantagem'
Frase do Analista de Bagé, personagem criado por Luis Fernando Veríssimo em livro de 1981. A formulação resume em uma linha o regionalismo gaúcho como economia de prestígio.
Yet each man kills the thing he loves
Estrofe-refrão de The Ballad of Reading Gaol (1898), o último poema longo de Wilde, escrito após a saída da prisão.
What is a cynic? A man who knows the price of everything and the value of nothing
De Lady Windermere's Fan, Ato III — Lord Darlington responde a Cecil Graham. Definição que se descolou da peça e virou aforismo independente.
We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars
De Lady Windermere's Fan, Ato III — Lord Darlington em sua sala de fumar, em meio a uma roda de homens da sociedade. Inscrição na sepultura de Wilde no Père-Lachaise.
To lose one parent, Mr. Worthing, may be regarded as a misfortune; to lose both looks like carelessness
De The Importance of Being Earnest, Ato I — Lady Bracknell ao examinar Jack Worthing. Linha mais citada da peça mais citada de Wilde.
There is only one thing in the world worse than being talked about, and that is not being talked about
De The Picture of Dorian Gray, capítulo 1 — Lord Henry argumentando para Basil expor o retrato. Inversão da máxima vitoriana sobre reputação.
There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written, or badly written. That is all
Aforismo do Prefácio de The Picture of Dorian Gray (1891), em resposta direta às acusações de imoralidade contra a serialização de 1890.
The truth is rarely pure and never simple
De The Importance of Being Earnest, Ato I — Algernon a Jack. Linha que abre uma sequência sobre mentira e respeitabilidade.
The supreme vice is shallowness
Refrão de De Profundis, a longa carta que Wilde escreveu em Reading Gaol entre janeiro e março de 1897 a Lord Alfred Douglas.
The only way to get rid of a temptation is to yield to it
De The Picture of Dorian Gray, capítulo 2 — Lord Henry corrompendo Dorian. Frase que prefigura a trajetória do romance.
The only difference between the saint and the sinner is that every saint has a past, and every sinner has a future
De A Woman of No Importance, Ato III — Lord Illingworth. Inversão de catequese que Wilde vai retomar implicitamente em De Profundis.
The English country gentleman galloping after a fox—the unspeakable in full pursuit of the uneatable
De A Woman of No Importance, Ato I — Lord Illingworth. Definição que virou slogan dos opositores britânicos à caça à raposa.
The artist is the creator of beautiful things. To reveal art and conceal the artist is art's aim
Primeiro aforismo do Prefácio de The Picture of Dorian Gray (1891). Manifesto de abertura do programa estético wildeano.
Nothing succeeds like undress
Atribuída a Wilde e a Dorothy Parker. Apareceu anônima em 1906 como variação do Nothing succeeds like excess de Wilde (1893).
Nothing succeeds like excess
De A Woman of No Importance, Ato III — Lord Illingworth. Reversão do provérbio Nothing succeeds like success, atribuído a Dumas pai.
Man is least himself when he talks in his own person. Give him a mask, and he will tell you the truth
De The Critic as Artist (1891), parte II — Gilbert a Ernest. Tese central da estética wildeana sobre verdade indireta.
Lying, the telling of beautiful untrue things, is the proper aim of Art
Conclusão de The Decay of Lying (1889). Vivian fecha as três doutrinas da nova estética — a defesa da mentira como ofício artístico.
Life is not complex. We are complex. Life is simple, and the simple thing is the right thing
Carta de Wilde a Robert Ross em 1 de abril de 1897, escrita ainda em Reading Gaol semanas antes da soltura.
Life imitates Art far more than Art imitates Life
Tese central de The Decay of Lying (1889) — diálogo em forma platônica em que Vivian sustenta a inversão da mimesis aristotélica.
In this world there are only two tragedies. One is not getting what one wants, and the other is getting it
De Lady Windermere's Fan, Ato III — Mr. Dumby, na cena nos aposentos de Lord Darlington. Forma final de tópos que Wilde também tratou em An Ideal Husband.
Imitation is the sincerest form of flattery that mediocrity can pay to greatness
Frase atribuída a Wilde. A versão curta é de Charles Caleb Colton em 1820. A extensão sobre mediocridade é evolução posterior, anônima.
