Notas
Índice cronológico de todas as notas do Scholion.
1929 notas · última:
O corpo humano é a melhor imagem da alma humana
Investigações Filosóficas, Parte II, iv. Tese contra o dualismo: a alma não está escondida por trás do corpo. Ela se mostra nele.
Quando obedeço a uma regra, não escolho. Sigo a regra cegamente
Investigações Filosóficas §219. Seguir regra não é escolher entre interpretações. É reação treinada, não deliberação consciente.
Esgotadas as justificações, cheguei à rocha e minha pá se entorta
Investigações Filosóficas §217. Imagem do limite da justificação: cavar mais é gesto vão. A regra se ensina por treinamento, não por argumento.
Os aspectos das coisas mais importantes para nós ficam ocultos por sua simplicidade e familiaridade
Investigações Filosóficas §129. O que estrutura nossa compreensão fica invisível justamente por ser corriqueiro. Diagnóstico do trabalho filosófico.
Não pense, mas olhe!
Investigações Filosóficas §66. Wittgenstein interrompe a busca por essência conceitual e pede observação dos casos. Método contra a generalização precoce.
Se um leão pudesse falar, não poderíamos compreendê-lo
Investigações Filosóficas, Parte II, xi. A compreensão linguística pressupõe forma de vida partilhada. Sem ela, mesmo a fala traduzível seria opaca.
Não é acordo em opiniões, mas em forma de vida
Investigações Filosóficas §241. O acordo que fundamenta a linguagem não está em juízos compartilhados, mas em uma Lebensform comum prévia.
Nenhum curso de ação pode ser determinado por uma regra
Investigações Filosóficas §201. Paradoxo da regra: qualquer ação pode ser interpretada como conforme à regra. Núcleo do problema do seguir-uma-regra.
A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento da nossa inteligência pela linguagem
Investigações Filosóficas §109. Wittgenstein redefine o trabalho filosófico como terapia contra os enredos que a própria linguagem nos impõe.
Para uma grande classe de casos, o significado de uma palavra é seu uso na língua
Investigações Filosóficas §43. Wittgenstein desloca o significado da referência para o uso. Frase central da virada para a filosofia da linguagem comum.
Não é como o mundo é que é o místico, mas que ele é
Proposição 6.44 do Tractatus. O místico não está no conteúdo do mundo, mas no fato bruto da existência. Wittgenstein nomeia o assombro com o ser.
O que pode ser dito, pode ser dito com clareza
Prefácio do Tractatus. Wittgenstein resume a tese central do livro em uma linha: o que se diz, diz-se claramente; o resto, silêncio.
Quem me entende reconhece minhas proposições como sem sentido
Proposição 6.54 do Tractatus. Imagem da escada que se descarta após subir. Wittgenstein declara as próprias proposições como sem sentido, a serem superadas.
Existe, sim, o inexprimível. Isso se mostra; é o místico
Proposição 6.522 do Tractatus. Wittgenstein abre espaço para o inexprimível pela distinção dizer/mostrar. O místico não é dito, é mostrado.
Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo
Proposição 5.6 do Tractatus. Identifica extensão da linguagem com extensão do mundo cognoscível. Tese citada e descontextualizada com frequência.
O mundo é tudo o que é o caso
Proposição 1 do Tractatus. Abertura do livro define mundo como totalidade de fatos, não de coisas. Decisão ontológica que comanda toda a obra.
Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar
Proposição 7 do Tractatus, única frase de sua seção. Encerra o livro impondo silêncio sobre o que excede os limites da linguagem com sentido.
Pesquisa Viva: Pequeno Tratado em Áudio de Grandes Virtudes
Roteiro para o podcast Pequeno Tratado em Áudio de Grandes Virtudes (EN: Pocket Compendium of the Great Virtues) — série de 5-15 episódios curtos sobre as 18 virtudes do tratado de André Comte-Sponville, cruzando o vault do Scholion (estoicos, moralistas franceses, Wilde, Pascal) com pensamento oriental e Kung Fu (德 dé, 仁 ren, Lao Tzu, Confúcio).
Pesquisa Viva: Amor desinteressado e o anel de brilhantes
O anel de noivado de brilhantes como dispositivo cultural — não símbolo do amor desinteressado, mas substituto privado de uma garantia legal que existiu até os anos 1930. Mapear a tese de Brinig (1990), a fabricação De Beers, e o paradoxo da garantia que se faz passar por gratuidade.
Existir é a tarefa mais cara que existe
Frase atribuída a Cioran em compilações em português, sem fonte primária verificável. Paráfrase plausível, não citação.
Não há nada como o desespero para nos tornar livres
Frase circula amplamente em redes sociais como Cioran, sem fonte primária identificável em sua obra. Provável paráfrase de leitor.
Sans Bach, Dieu serait un type de troisième ordre
Frase de Cioran frequentemente citada como vinda de Aveux et anathèmes (1987). Na verdade é de entrevista publicada postumamente em Symphonia (1996).
Le scepticisme est l'élégance de l'anxiété
De Syllogismes de l'amertume (1952). O ceticismo como elegância da angústia: forma estilística de habitar o que não tem solução.
Je vis seulement parce qu'il est en mon pouvoir de mourir quand je veux
De Syllogismes de l'amertume (1952). A possibilidade do suicídio como condição de continuar vivo: sem ela, já estaria morto.
Un livre est un suicide différé
De De l'inconvénient d'être né (1973). Escrever como adiamento do suicídio: cada livro é uma pausa concedida ao desespero.
Nous ne courons pas vers la mort, nous fuyons la catastrophe de la naissance
De De l'inconvénient d'être né (1973). Não corremos em direção à morte, fugimos da catástrofe do nascimento.
L'ennui est l'écho en nous du temps qui se déchire
De Précis de décomposition (1949). O tédio como o eco em nós do tempo se rasgando: definição mais exata que qualquer psicologia.
Tout ce qui nous empêche de nous dissoudre est religieux
De La Tentation d'exister (1956). Toda mentira que nos protege das certezas irrespiráveis é religiosa, mesmo que não se chame assim.
Qu'attendez-vous pour renoncer ?
De De l'inconvénient d'être né (1973). A pergunta lançada de volta: o que se está esperando para desistir?
La société n'est pas une maladie, c'est un désastre
De Précis de décomposition (1949). A sociedade como desastre, não doença: estúpido milagre poder viver nela.
Si à 30 ans un homme n'a pas cédé à la fascination de toute forme d'extrémisme...
De Histoire et utopie (1960). Quem aos 30 não cedeu a algum extremismo: santo ou cadáver. Confissão biográfica disfarçada de máxima.
Va vingt minutes au cimetière
De entrevista a Salmagundi (1994). O conselho recorrente de Cioran a desesperados: meia-hora num cemitério vale mais que um médico.
Trois heures du matin. Cette seconde, puis cette autre — et ainsi de suite
De De l'inconvénient d'être né (1973). A insônia como acta de acusação contra o nascimento, segundo a segundo.
Un aphorisme ? Du feu sans flammes
De De l'inconvénient d'être né (1973). O aforismo como fogo sem chamas: ninguém pode aquecer-se nele, e Cioran sabe disso.
La mort est trop exacte ; toutes les raisons sont de son côté
De Précis de décomposition (1949). A morte como o exato; a vida como o grande desconhecido. Inversão da hierarquia comum.
Quand la pègre épouse un mythe, attendez-vous à un massacre ou, pis encore, à une nouvelle religion
De Syllogismes de l'amertume (1952), p. 132. A canalha que adota um mito: ou massacre, ou religião nova.
Il n'est pas élégant d'abuser de la malchance
De Syllogismes de l'amertume (1952), p. 69. A elegância como freio do azar: certos indivíduos e povos desonram a tragédia ao se comprazerem nela.
On ne réfléchit que parce qu'on se dérobe à l'acte
De Cahiers 1957-1972, p. 59. Pensar como esquiva: a reflexão começa onde o ato é recusado.
Ne pas naître est sans contredit la meilleure formule qui soit
De De l'inconvénient d'être né (1973). Não nascer como melhor fórmula possível, fora do alcance de quem quer que seja.
Je n'ai pas d'idées, j'ai des obsessions
De Sur les cimes du désespoir (1934). Aos 22 anos, Cioran já assina o programa: as ideias não derrubam ninguém, as obsessões sim.
