Notas
Índice cronológico de todas as notas do Scholion.
1929 notas · última:
Obra de finados
Expressão de Machado no prólogo 'Ao leitor' de Memórias Póstumas, que abre a edição em livro de 1881. Ele caracteriza ali o livro como 'obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne...'
'Máscara' — atribuído a Drummond, é de Dante Milano
O poema 'Máscara' circula em redes brasileiras como sendo de Drummond. É de Dante Milano, conforme registro da Wikiquote.
O mundo seria insuportável se as criaturas tivessem boa memória
Aforismo de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938) sobre a função antropológica do esquecimento. Inversão da equação corrente que associa memória a virtude.
Meu coração vagabundo / Quer guardar o mundo / Em mim
Refrão de 'Coração Vagabundo' (1967) de Caetano Veloso, do álbum *Domingo* gravado em parceria com Gal Costa nos meses anteriores ao tropicalismo.
Memorial de Aires
Último romance de Machado (1908), em forma de diário do Conselheiro Aires entre 1888 e 1889. Acompanha o casal Aguiar e a relação com a viúva Fidélia e o jovem Tristão. Tom crepuscular, sem comentário.
'A dor é inevitável, o sofrimento é opcional' — não é de Drummond, é de Tim Hansel
A frase, que circula como Drummond em redes brasileiras, é de Tim Hansel, do livro 'You Gotta Keep Dancin'' (1985), conforme registro da Wikiquote.
Perus, Malagueta e Bacanaço: a literatura dos homens lentos
Marina aproxima Perus, Malagueta e Bacanaço de João Antônio do conceito miltoniano de homens lentos — a literatura urbana do submundo paulistano.
Quando o amor ao dinheiro nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas
Passagem de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938) que cita o título: a evocação direta do Sermão da Montanha como antídoto contra a cegueira da ascensão social.
O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
Abertura de 'O Estrangeiro' (1989), faixa-título do álbum *Estrangeiro* de Caetano Veloso produzido em Nova York por Arto Lindsay e Peter Scherer.
Homens lentos e pertinência da utopia
A força dos homens lentos remete à pertinência da utopia em Milton — e ao mercado socialmente necessário formulado com Ana Clara Torres Ribeiro.
Coisas futuras!
Capítulo I de Esaú e Jacó (1904). Natividade e a irmã consultam a cabocla do morro do Castelo sobre o futuro dos gêmeos Pedro e Paulo. A previsão dúbia organiza o livro inteiro.
'Recomeçar' / 'Não importa onde você parou' — não é de Drummond, é de Paulo Roberto Gaefke
O texto motivacional 'Recomeçar', frequentemente atribuído a Drummond no Brasil, é de Paulo Roberto Gaefke conforme registro da Wikiquote.
Futuro dos homens lentos: esperança como construção
Compatibilizar o homem lento miltoniano com aceleracionismo de esquerda — e a esperança como traço atraente em Milton: o futuro vai ser desses homens lentos.
Lento para o capital, produtivo para a vida
Lento para o capital, mas produtivo em outros aspectos: o homem lento miltoniano e a inversão da pergunta sobre produtividade.
Homem lento como insubmissão ao produtivismo
O homem lento de Milton Santos como insubmissão às velocidades do capital — figura que recusa a temporalidade do produtivismo sem ser reformista.
Pode-se conhecer um homem pelo modo como trata os subordinados (apócrifa)
Citação que circula por redes sociais com atribuição falsa a Machado de Assis, supostamente de Dom Casmurro. Não consta em nenhuma obra do autor; pesquisa em ferramentas de busca da obra completa não encontra a frase.
No fim de contas a vida é uma aventura
Frase de 'Um Lugar ao Sol' (1936). Resignação ativa diante da contingência: a vida lida como aventura recoloca o sujeito como agente, não como vítima.
É que Narciso acha feio o que não é espelho
Verso central de 'Sampa' (1978) de Caetano Veloso, álbum *Muito (Dentro da Estrela Azulada)*, formulação de autocrítica do baiano que rejeitou São Paulo na chegada.
'Aceitar é como uma droga, ela mata' — apócrifa, não é de Drummond
Frase circula em redes sociais brasileiras atribuída a Drummond. Não há registro do trecho em livro algum do autor; é apócrifa.
Sobre a cabeça os aviões / Sob os meus pés os caminhões
Versos de abertura de 'Tropicália' (1968) de Caetano Veloso, álbum solo *Caetano Veloso* (Philips), faixa que deu nome ao movimento depois da instalação homônima de Hélio Oiticica.
Só foge da solidão quem tem medo dos próprios pensamentos
Aforismo de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938) sobre o uso compulsivo de companhia como fuga interior. Inverte a leitura comum da solidão como déficit.
Daquela linha sairia tudo, num desfecho macabro
Conto 'A Cartomante' (1884), recolhido em Várias Histórias (1896). Camilo, racionalista, é tranquilizado pela cartomante e segue para a casa de Vilela; o conto fecha com ironia plena sobre a fé na razão.
'A vida é a arte do encontro' — não é de Drummond, é de Vinicius de Moraes
Frase 'A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida' é atribuída a Drummond em redes sociais brasileiras. É de Vinicius de Moraes, do 'Samba da Bênção' (1962).
Ir às livrarias para ele era cumprir um rito
Frase de 'Olhai os Lírios do Campo' (1938) que descreve a relação de Eugênio com os livros. A leitura como prática litúrgica de classe média intelectual.
Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas
Capítulo LXVIII de Memórias Póstumas — 'O Vergalho'. Brás Cubas vê Prudêncio, ex-escravo da família e antigo cavalo de seu cavalgar infantil, açoitando outro escravo numa rua e racionaliza a cena.
Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento
Versos de abertura de 'Alegria, Alegria' (1967), apresentada por Caetano Veloso no III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, com a banda argentina Beat Boys.
Cada instante é diferente, e cada homem é diferente
Verso de 'Os Últimos Dias', poema de 'A Rosa do Povo' (1945), também registrado na coletânea 'Poesia até Agora' (1948).
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida
Capítulo II de Dom Casmurro — 'Do Livro'. Bento Santiago declara o projeto do livro: reconstruir, na velhice, a casa da meninice em Engenho Novo, e suturar os dois extremos da existência.
O bonde passa cheio de pernas
Verso de abertura do poema 'O Bonde', registrado em 'Poesia até Agora' (1948). Imagem urbana modernista que reduz os passageiros a anatomia fragmentada.
Não há nada que melhor ilustre a moral egoísta do que a fábula da cigarra e da formiga
Crítica da moral burguesa em 'Olhai os Lírios do Campo' (1938). Veríssimo lê La Fontaine ao avesso e expõe o cálculo de classe escondido na fábula edificante.
Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando
Frase recorrente de Ana Terra em 'O Continente' (1949), primeiro volume da trilogia 'O Tempo e o Vento'. O vento como índice subjetivo de evento.
Amar sem inquietação é amar sem amor
Aforismo de 'O Avesso das Coisas' (Record). Definição do amor pela presença obrigatória do desassossego: sem ansiedade, não há amor.
Restituo a liberdade ao meu escravo Pancrácio
Crônica 'Bons Dias!' de 19 de maio de 1888, publicada na Gazeta de Notícias seis dias depois da Lei Áurea. Machado retrata por dentro a hipocrisia das classes que apoiaram a abolição já consumada.
Quem está com fome fica surdo até mesmo
Frase de 'Um Lugar ao Sol' (1936). Aforismo materialista sobre como a privação física fecha os canais de escuta moral e estética.
Entre as diversas formas de mendicância, a mais humilhante é a do amor implorado
Aforismo de 'O Avesso das Coisas' (Record). Drummond classifica o pedido de afeto como pior que o pedido material.
Você gosta de romances?
Pergunta de Conceição a Nogueira no conto 'Missa do Galo' (1893, recolhido em Páginas Recolhidas, 1899). Frase aparentemente inocente que carrega o jogo erótico do diálogo noturno.
Todos morrem. Os ricos e os pobres, os inteligentes e os estúpidos
Constatação igualitária em 'Incidente em Antares' (1971). A morte como única equalização de uma sociedade que o romance retrata como hierárquica.
A boca beijada não guarda a marca do êxtase
Aforismo de 'O Avesso das Coisas' (Record). O corpo não retém prova material da experiência amorosa, e isso é constitutivo dela.
A progressão social repousa essencialmente sobre a morte
Tese sociológica em 'Incidente em Antares' (1971). Os vivos são sempre governados pelos mortos, e o romance dos defuntos insepultos é, em parte, sua ilustração.
A Igreja do Diabo
Conto de 1883, recolhido em Histórias sem Data (1884). O Diabo funda igreja em que pecados viram virtudes; descobre depois que os fiéis pecam às escondidas, isto é, transgridem o pecado pela virtude.
