Os tons do Cantonês em Jyutping
A contagem de tons do Cantonês depende de quem está contando. A análise moderna padrão, usada pelo Jyutping (a romanização oficial do Cantonês de Hong Kong) e por dicionários como o MDBG, fala em seis tons. A contagem tradicional fala em nove, somando três entering tones que são versões curtas dos tons 1, 3 e 6 em sílabas terminadas em -p, -t, -k. Em Guangzhou ainda se conta um sétimo, uma distinção entre alto plano e alto descendente que Hong Kong fundiu no século passado. Tudo isso fala da mesma língua, só com convenções de corte diferentes.
Como na nota sobre os tons do Mandarim, descrevo cada tom pelo contorno de Chao (escala 1–5, onde 1 é grave e 5 é agudo) e por um gesto da mão. O exemplo clássico do Cantonês é a sílaba si, que como o ma do Mandarim cobre os seis tons com palavras reais. Há também um diagrama dos contornos no Commons que vale a pena olhar antes de seguir.
- Tom 1 — si1 (詩, poema). Contorno 55: alto e plano. Mesma altura do tom 1 do Mandarim. Gesto: mão estendida e parada na altura dos olhos.
- Tom 2 — si2 (史, história). Contorno 25: subida do baixo-médio para o agudo, contínua. Parecido com o tom 2 do Mandarim, mas começa mais embaixo. Gesto: mão sobe da altura da cintura para a altura dos olhos.
- Tom 3 — si3 (試, testar). Contorno 33: meio plano. A voz fica fixa numa altura intermediária, sem subir nem descer. Não tem equivalente no Mandarim. Gesto: mão estendida e parada na altura do peito.
- Tom 4 — si4 (時, tempo). Contorno 21: baixo descendente. Começa no grave e desce ainda mais, ou fica afundado. Gesto: mão na altura da cintura, descendo um pouco.
- Tom 5 — si5 (市, mercado). Contorno 23: baixo-rising. Começa no grave e sobe até o meio, sem chegar ao agudo. É a versão grave do tom 2. Gesto: mão sobe da cintura até o peito.
- Tom 6 — si6 (是, ser/é). Contorno 22: baixo plano. A voz fica fixa numa altura grave. Gesto: mão estendida e parada na altura da cintura.
Os três tons restantes da contagem tradicional, chamados entering tones (入聲, jap6 sing1), aparecem só em sílabas curtas terminadas em consoante oclusiva (-p, -t, -k). Foneticamente, eles têm a mesma altura dos tons 1, 3 e 6, e por isso o Jyutping não os numera de 7 a 9: marca cada um com o número do tom correspondente, e a sílaba se encarrega de mostrar que é curta.
- Entering alto (陰入, contorno 5): mesma altura do tom 1, em sílaba curta. Ex.: sik1 (識, conhecer/saber).
- Entering médio (中入, contorno 3): mesma altura do tom 3, em sílaba curta. Ex.: sip3 (攝, absorver).
- Entering baixo (陽入, contorno 2): mesma altura do tom 6, em sílaba curta. Ex.: sik6 (食, comer).
Foi por preservar essa distinção yin / yang (阴/阳, alta/baixa) em todas as séries tonais que o Cantonês acabou com mais tons que o Mandarim. Os quatro tons do Chinês Médio se desdobraram em pares de altura conforme o vozeamento da consoante inicial original, e o Cantonês reteve a divisão. O Mandarim, que perdeu a oposição de vozeamento, colapsou várias dessas distinções e ficou com quatro. É por isso que poesia clássica Tang soa mais próxima do original em Cantonês: a métrica tonal das rimas antigas ainda funciona.
Mais tons significa mais densidade semântica por sílaba, e também mais espaço para erro de quem está aprendendo, como já registrei em Cantonês exige ouvido mais treinado. Os tons 3 e 6 (médio plano e baixo plano) são especialmente difíceis de distinguir para um ouvido brasileiro porque o português não tem nada parecido com tom de altura fixa.
