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Os alemães estão lendo Carl Schmitt em meio às ruínas do atlantismo

Ian Klinke descreve um ressurgimento do jurista nazista Carl Schmitt no debate público alemão de janeiro de 2026, quando jornais e revistas do país passaram a citá-lo em relação à “Doutrina Donroe” de Trump e ao retorno da geopolítica de blocos. O centrista Herfried Münkler, lido por Angela Merkel e Ursula von der Leyen, e a extrema direita da AfD convergem na mesma leitura: um mundo de esferas de influência regionais confirma o esquema schmittiano de “grandes espaços”.

O artigo reconstrói a teoria de Schmitt a partir de um panfleto de 1939, escrito entre a invasão da Tchecoslováquia e o Pacto Molotov-Ribbentrop, no qual ele lia a Doutrina Monroe como modelo para uma ordem mundial de blocos continentais organizados em torno de um núcleo imperial cada.

Fichamento
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  • Schmitt via a ordem internacional como um sistema de “grandes espaços” (Großraum): cada bloco organizado em torno de um Reich soberano, com anexação territorial legítima dentro do bloco e intervenção estrangeira proibida entre blocos.
  • No panfleto de 1939, Schmitt saudava a promessa de Hitler de proteger direitos de alemães étnicos no exterior como princípio de direito internacional, e excluía judeus dessa proteção.
  • Ele criticava os Estados Unidos por universalizar a Doutrina Monroe (Wilson) em vez de a usar para continentalizar o mundo, que via como seu propósito original; considerava o espaço abstrato e matemático “liberal e judaico”, em oposição ao grande espaço concreto e político.
  • Depois de 1945, Schmitt se isolou voluntariamente, mas seguiu como referência para intelectuais conservadores alemães e para a extrema direita europeia durante décadas à margem do debate político.
  • Na AfD, referências a Schmitt aparecem em linha-duras como Maximilian Krah e Björn Höcke, no vice-líder da bancada Markus Frohnmaier e até na líder do partido, Alice Weidel; a reverência se intensifica nos círculos do ideólogo Götz Kubitschek e sua editora Antaios.
  • Klinke situa uma tensão nunca resolvida no pensamento de Schmitt: ele defendia igualdade entre grandes espaços e, ao mesmo tempo, previa uma disputa entre potências terrestres (Alemanha) e marítimas (Grã-Bretanha, Estados Unidos) que desejava ver a Alemanha vencer.
  • Obstáculos concretos a uma agenda revisionista territorial alemã: a Polônia tem hoje o maior gasto militar proporcional da Europa e minorias alemãs pequenas ou inexistentes nos “territórios perdidos”; a AfD também não resolveu como se posicionar frente à França, outra potência hegemônica candidata na Europa continental.
  • O AfD nunca rompeu com a Rússia de Putin, diferente do RN de Le Pen ou do governo de Meloni; Klinke liga essa postura ao respeito schmittiano pela esfera de influência russa, e nota que Schmitt nunca defendeu a invasão nazista da URSS nem tomou partido na Guerra Fria.
  • Conclusão do autor: o resultado mais provável do retorno de Schmitt, seja pela extrema direita seja pelo centro, é a busca de hegemonia econômica, no molde da hegemonia alemã que Münkler ajudou a promover na década de 2010 como assessor de Wolfgang Schäuble.