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O que é um Scholion (e o que é Marginalia)

Scholion (σχόλιον, plural scholia) é a palavra grega para “comentário, explicação, glosa”. Vem de σχολή (skholē), que significa “ócio”, “lazer”, “tempo livre” — e por extensão, “estudo”, já que o estudo era a coisa boa que se fazia com o tempo livre. A mesma raiz dá escola em todas as línguas europeias.

No mundo antigo, o scholion era a anotação que um copista, gramático ou comentarista deixava nas margens — ou entre as linhas — de um manuscrito. Servia para explicar uma passagem obscura, registrar uma variante textual, traçar uma etimologia, situar um costume, atribuir um verso. Os grandes corpos de scholia que sobreviveram são os de Homero, Aristófanes, Píndaro, Virgílio, e os manuscritos bíblicos. Eles são, em conjunto, a maior fonte que temos sobre como os antigos liam os antigos: o que achavam difícil, o que achavam óbvio, o que precisavam decifrar.

O scholiast é a pessoa que escreve scholia. E há scholia sobre scholia — comentários do século X glosando glosas do século II que glosavam um texto do século VIII a.C. Um manuscrito carregado é uma estratificação geológica de leituras.

Marginalia é uma palavra mais nova e mais larga. Latim marginalis (relativo à margem), o termo foi cunhado por Coleridge no início do século XIX para descrever as próprias anotações que ele rabiscava nos livros que lia — e que viraram, postumamente, uma edição em seis volumes. Edgar Allan Poe publicou ensaios chamados Marginalia nos anos 1840, simulando notas soltas escritas em margens. Mark Twain marginaliava seus livros com vingança. Blake desenhava nas margens.

A marginalia inclui o scholion mas vai além: também é marginalia o cavaleiro lutando contra um caracol gigante numa Bíblia do século XIII, a mão apontando que escribas medievais desenhavam para marcar passagens importantes (a manícula), o protesto irritado escrito por um leitor anônimo do século XVII no exemplar que chega à minha estante. Marginalia é qualquer marca que alguém deixou na margem — erudita, ornamental, rancorosa, distraída, brilhante.

A diferença prática: todo scholion é marginalia, mas nem toda marginalia é scholion. O scholion quer explicar o texto; a marginalia só quer existir ao lado dele.

Esse site é um pouco dos dois. Algumas notas são glosas sérias de coisas que li e quis comentar; outras são fragmentos que só queriam um lugar para descansar do lado da estrada do pensamento.