A numeração de Gödel
A numeração de Gödel é o truque que deixa a matemática falar de si mesma. A ideia é dar a cada símbolo, cada fórmula e cada demonstração um número próprio, único, de um jeito que sempre permita fazer o caminho de volta.
Primeiro, cada símbolo básico da linguagem (o sinal de igual, o de soma, as variáveis, o zero) ganha um número. Depois, uma fórmula, que é uma sequência de símbolos, é codificada multiplicando os primos em ordem, cada um elevado ao número do símbolo naquela posição. O primeiro símbolo vai no expoente do 2, o segundo no do 3, o terceiro no do 5, e assim por diante: 2^a · 3^b · 5^c · … (Gödel numbering).
No sistema de Nagel e Newman, a fórmula “0 = 0”, de apenas três símbolos, recebe o número 2⁶ × 3⁵ × 5⁶ = 243.000.000 (Gödel numbering).
O que faz isso funcionar é o teorema fundamental da aritmética: todo número tem uma única fatoração em primos. De posse do número, fatorá-lo recupera exatamente a sequência de símbolos que o gerou, de forma mecânica e efetiva (SEP).
Há muitas numerações de Gödel possíveis, e o esquema escolhido é arbitrário. O que importa é que alguma escolha seja efetiva e reversível (Gödel numbering).
Com fórmulas e demonstrações viradas em números, afirmações sobre o que o sistema prova passam a ser afirmações sobre números, dentro do próprio sistema. É esse o mecanismo que permite a Gödel construir uma sentença que fala da própria demonstrabilidade, e a partir dela provar o teorema da incompletude.
