A curiosa semelhança de família de todo filosofar indiano, grego e alemão tem uma explicação simples
A curiosa semelhança de família de todo filosofar indiano, grego e alemão tem uma explicação simples. Onde há parentesco lingüístico é inevitável que, graças a uma filosofia da gramática que lhes é comum — quero dizer, graças ao domínio e direção inconsciente por meio das mesmas funções gramaticais —, tudo esteja predisposto para uma evolução e uma seqüência similares dos sistemas filosóficos, assim como o caminho parece fechado a certas possibilidades outras de interpretação do mundo.
O aforismo 20 está na primeira parte de Jenseits von Gut und Böse, “Dos preconceitos dos filósofos”. A tese é que filosofias de mesma família linguística partilham, sem saber, uma mesma filosofia da gramática (Philosophie der Grammatik), e por isso repetem o mesmo percurso. Categorias que o filósofo toma por descobertas sobre o ser, como sujeito, substância e a relação entre sujeito e predicado, são heranças da estrutura da língua em que pensa. Pensar, nesse diagnóstico, é menos descoberta que recordação, um regresso ao lar ancestral da alma.
A intuição já estava em Adam Smith um século antes, em chave menos polêmica: nomear uma cor já embute metafísica, porque exige separar a qualidade da substância. Nietzsche generaliza e radicaliza. Não é só o adjetivo que carrega metafísica; é o sistema inteiro que a gramática conduz.
A filosofia do século XX herda a suspeita por duas vias. A virada gramatical de Wittgenstein, Ryle e Austin refaz a pergunta ontológica como pergunta sobre o uso da língua. E Carnap leva o argumento ao tribunal: se a gramática lógica decide o que tem sentido, a metafísica que ela não autoriza cai como pseudo-proposição, nem verdadeira nem falsa.
No mesmo livro, poucos aforismos antes, Nietzsche dá a outra metade do diagnóstico, a de que toda grande filosofia é a confissão pessoal do autor. Gramática e biografia são as duas forças que, para ele, decidem um sistema por baixo da consciência de quem o constrói.
