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Natânia Lopes e a sabotagem da troca em Cabaré

00:02:12 — apresentação no podcast Vox

Natânia Lopes é antropóloga brasileira, putativista da Rede Brasileira de Prostitutas e do coletivo Puta da Vida. No mestrado, pesquisou bandidos e crime organizado no Rio de Janeiro; no doutorado, entrou no mundo da prostituição de luxo, frequentando bordéis e atuando como call girl para compreender o trabalho a partir de dentro. A pesquisa virou o livro Cabaré, publicado pela Editora Urutau.

A passagem do bandido para a puta foi conceitual: Natânia identificou nos funks proibidões um paralelismo estrutural — o bandido é o outro do trabalhador, e a puta é a outra da esposa — que organizou a tese e a virada de campo.

O conceito-eixo do livro é a sabotagem da troca: ganhar o máximo dando o mínimo, em recusa programática à equivalência justa que, segundo Marcel Mauss, sustenta a sociabilidade humana através do circuito do dom. A puta aceita vender sexo por dinheiro, mas o jogo é minimizar o que entrega e maximizar o que recebe — programa de incesto encenado, blefe do sexo anal, malandragem do flerte. Não como exceções éticas, mas como aplicação consistente de uma ética alternativa.

Esse princípio se ancora em outro: o revanchismo de gênero. As mulheres acumulam mágoa cotidiana em todas as relações com homens — do cara que mexe no bar ao marido, ao pai. A prostituição é, para Natânia, a única arena em que essa dívida histórica encontra forma de cobrança organizada. Daí seu argumento, contra a leitura humanitária da prostituição como vitimização: na economia do programa, é a mulher que define preço, modalidades e recusas, e por isso o sexo pago é, paradoxalmente, o sexo em que a mulher tem mais agência negociadora do que numa relação heterossexual gratuita.