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'May you live in interesting times' não é maldição chinesa antiga

“May you live in interesting times” é citada há quase um século como “antiga maldição chinesa”, às vezes especificamente atribuída a Confúcio. Robert Kennedy a usou em discurso famoso na África do Sul em 1966 (“we live in interesting times… they are times of danger and uncertainty”). A frase aparece em decisões judiciais americanas, em discursos diplomáticos, em livros de Hillary Clinton e Albert Gore.

Não há equivalente chinês. Filólogos e sinólogos buscaram em poesia clássica, provérbios, Yìjīng, Lúnyǔ, Zhuāngzǐ — sem encontro. A pesquisa de Garson O’Toole (Quote Investigator, 2015) localiza a primeira ocorrência rastreável num discurso de Joseph Chamberlain em 1898: “I think that you will all agree that we are living in most interesting times. I never remember myself a time in which our history was so full.” Não há “praga”, não há atribuição chinesa, não há Confúcio. É comentário político vitoriano comum.

O passo seguinte foi de Joseph para o filho Austen Chamberlain, que em 1936 escreveu numa carta o quase-original da fórmula presente, atribuindo a “an English diplomat” e depois mencionando obscuramente a possibilidade de origem chinesa. A formulação como “antiga maldição chinesa” estabilizou-se na imprensa anglófona dos anos 1940-50, e dali se difundiu globalmente.

Não consta em nenhum texto confuciano. O processo aqui é diferente das outras misatribuições — não é uma frase real de outro autor sendo deslocada para Confúcio, é uma frase do diplomata britânico do final do século XIX inventando uma origem chinesa que nunca existiu. O orientalismo (no sentido de Said) opera aqui em estado bruto: a antiguidade oriental é recurso retórico para dar peso a uma observação política comum.