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Mauss e o Ensaio sobre a Dádiva (1925)

00:51:14 — citação no podcast Vox

Marcel Mauss (1872–1950), antropólogo francês, sobrinho e discípulo de Émile Durkheim, é um dos fundadores da antropologia francesa. Seu Essai sur le don (1925), publicado na revista L’Année Sociologique, examina o kula melanésio (a partir de Malinowski), o potlatch dos povos da costa noroeste norte-americana e materiais romanos, hindus e germânicos, para extrair uma estrutura comum: nas sociedades ditas arcaicas, a troca não opera por contrato comercial mas por dádiva — e a dádiva é, simultaneamente, livre e obrigatória.

A tríplice obrigação que Mauss formula — dar, receber, retribuir — não é apenas regra de cortesia mas mecanismo elementar de coesão social: a dívida pendente liga as pessoas, e o circuito do dom é o que mantém os indivíduos colados ao grupo. Mauss formula aí o conceito de “fato social total”, herdado de Durkheim: fenômenos que mobilizam ao mesmo tempo as dimensões econômica, religiosa, jurídica e estética da vida coletiva.

No podcast Vox, Michel Alcoforado invoca Mauss para situar o ouvinte na referência teórica que sustenta o conceito de sabotagem da troca de Natânia Lopes: as putas, ao buscar sistematicamente ganhar o máximo dando o mínimo, recusam programaticamente a equivalência justa que estrutura o circuito da dádiva — uma forma de trabalho que opera por desobediência ao princípio que, segundo Mauss, sustenta a sociabilidade humana.