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Maturana e Varela — Autopoiese

Humberto Maturana (1928–2021), biólogo chileno. Francisco Varela (1946–2001), biólogo e neurocientista, também chileno. Professor e aluno que se tornaram colaboradores.

A pergunta que os movia: o que define um ser vivo? A resposta tradicional listava propriedades (metabolismo, reprodução, resposta a estímulos). Maturana e Varela propuseram outra coisa. Um sistema vivo é aquele que se produz a si mesmo. Cunharam o termo autopoiese (do grego auto, próprio, e poiesis, produção) em 1972.

Uma célula produz os seus próprios componentes. Esses componentes formam a fronteira (membrana) que delimita o espaço onde a produção acontece. A produção depende da fronteira, a fronteira depende da produção. É circular, e é essa circularidade que define a vida. Não a matéria, não a energia, não a informação. A organização.

Autopoiesis and Cognition (1980) é o texto técnico. Difícil, abstracto, escrito para biólogos e filósofos da ciência. Maturana escreve com uma precisão que beira a opacidade. Varela era mais acessível, mas neste livro seguiu o registo do professor.

The Tree of Knowledge (1987) é a versão para humanos. Ilustrado, narrativo, percorre a evolução dos sistemas nervosos desde organismos unicelulares até à linguagem humana. A tese é provocadora: não temos acesso ao mundo “lá fora”. O que chamamos de conhecimento é a história das nossas interacções com o meio. Conhecer não é representar a realidade. É viver.

A autopoiese foi levada para fora da biologia. Luhmann aplicou-a à sociologia (sociedades como sistemas autopoiéticos de comunicação). Capra integrou-a na sua síntese de sistemas vivos. Há quem diga que a metáfora foi esticada além do razoável. Maturana, dos dois, era o mais cauteloso com essas extensões. Varela era mais aberto a cruzar fronteiras disciplinares.

Varela morreu aos 54 anos de hepatite C. Nos últimos anos dedicou-se à neurophenomenologia, tentando juntar neurociência e experiência subjectiva em primeira pessoa. Meditava com rigor, praticava budismo tibetano, e achava que a ciência cognitiva precisava levar a sério o que o sujeito sente, não só o que o cérebro faz.