Marcos Davi: Kung Fu é vida
No terceiro encontro do Programa de Mestrado, Marcos Davi, Moy Dak Bei 梅德貴, começa a sua fala com uma definição herdada do Si Taai Gung: Kung Fu é vida.
Marcos era o único não mestre ainda nesse encontro e sempre surpreende o quanto ele se coloca em todas as situações. O quanto está aberto para expressar suas opniões e dividir conosco enriquecendo o encontro para todos.
Kung Fu é vida#
Marcos trabalha no mercado e convive com muita gente. Clientes de contato fácil, clientes mais ásperos. Tenta observar a si mesmo em cada relação. O refino, para ele, é o tema.
Mas o ponto mais interessante da fala está na casa. Parece que a casa era para ser o lugar mais fácil, ele diz. Não é. É onde ele mais exercita o Kung Fu, no contato com a filha e com a esposa. Onde às vezes ele se pega não ouvindo, se impondo demais, sendo “muito eu”. Onde aprender a ouvir é o refino real.
O sistema Ving Tsun serve de referência para essa leitura. Respeitar uma linha, respeitar outra. Respeitar o outro, saber ouvir o que o outro pede. Marcos não reivindica domínio. Está aprendendo.
Marcialidade não é luta#
Marcos diz que tem dificuldade de enxergar o Tan Sao 攤手 (Tān Shǒu / taan1 sau2) além da marcialidade, de levá-lo para o cotidiano. Reconhece que o próprio Kung Fu ainda está muito bebê nesse aspecto.
O Comentário do Si Fu#
Si Fu faz duas colocações a partir das falas de Marcos. A primeira nasce quando Marcos diz que “usa o Ving Tsun no trabalho”.
Kung Fu é o aspecto subjetivo do processo e do resultado. Sistema Ving Tsun é o aspecto objetivo, quase material.
Quando Marcos conta que se mantém no meio, na linha central, na relação com o cliente, ele está expressando Kung Fu, não aplicando Ving Tsun. Ving Tsun seria dar um soco na cara do cliente, uma palma numa ameaça física. A linha central transposta para a conversa é Kung Fu.
Só faz sentido perguntar se um sistema marcial pode ser vivenciado sem lutar se marcialidade e luta forem tratadas como sinônimos. Nem toda luta é marcial. Uma briga de botequim tem pouco ou nada de marcialidade.
Marcialidade vem do deus Marte, deus da guerra. Mas a guerra não era entre povos. Era a guerra que o homem travava com ele próprio. Com seus medos, suas inseguranças, suas agressividades.
Glosa#
Eu interrompi rudemente a fala do Marcos depois dos três minutos que havíamos combinado. Achei interessante que ele estava falando sobre reconhecer os próprios limites exatamente enquanto os excedia na fala. Já deixo minhas desculpas.
Só se pode utilizar Ving Tsun, como corpo de técnicas, fisicamente. O restante, extrapolar para a vida, é Kung Fu.
