❝ Citação
Marco Aurélio (121-180) «O maior dos homens» para Voltaire, «o homem perfeito», segundo Oscar Wilde. No extremo oposto da escala social ao escravo Epicteto, Marco Aurélio foi imperador romano de 161 até à sua morte, em Vindobona (atual Viena), em 180. Os seus Pensamentos foram escritos durante as campanhas militares nos últimos dez anos da sua vida. Em boa verdade, Marco Aurélio vê a vida como uma guerra, «um exílio no estrangeiro; a fama postuma, o esquecimento» (11). Num mundo destes, onde encontrar algo sólido que nos guie e preserve no nosso caminho? A resposta é clara, e claramente estoica: «Que pode então guiar-nos? Única e exclusivamente a filosofia. E ela consiste em velar o Deus interior, para que permaneça isento de ultraje e prejuízo, que triunfe dos prazeres e sofrimentos...» (12) Tal perspetiva da filosofia culmina na atitude correta para com a mortalidade. Marco Aurélio diz que o filósofo deve «aguardar a morte de alma serena» (13). Isto significa cultivar o sentimento de tranquilidade que já vimos em Séneca: «A perfeição moral consiste em passar cada dia como se fosse o último, em evitar a agitação, o torpor, a falsidade.» (14) Como é natural, os Pensamentos acabam com uma reflexão sobre a morte. Marco Aurélio pergunta: « Que procuras ainda? Prolongar a tua vida? » (15) O objetivo da vida é seguir a razão e o espírito divino e aceitar o que a natureza nos envia. Viver desta maneira significa não temer a morte, mas desprezá-la. A morte só aterra aqueles que que são incapazes de viver no presente. Marco Aurélio conclui: «Parte, pois, de boa vontade para corresponder à de quem te liberta.»
Trecho de Simon Critchley em O Livro dos Filósofos Mortos, publicado em 2020 pela Edições 70, na parte em que trata de Marco Aurélio e dos Pensamentos.
