Mestre Márcio Lopes: A arte da excelência e o aretê grego
No terceiro encontro do Programa de Mestrado, Mestre Márcio Lopes, Moy Si Ou 梅司奧, oferece uma definição curta. Kung Fu é a arte da excelência.
Kung Fu vem de uma habilidade que se constrói ao longo de anos de prática. Essa prática pessoal é expressão pessoal, algo que remete à arte. Fu 夫 (Fū / fu1), por tradução, é a maturidade alcançada como pessoa, como praticante, como aquele que executa. A arte da excelência, então.
A arte da excelência tem a ver com o dia a dia, com o convívio, com a profissão, com as relações humanas. Quando se diz que a pessoa tem bom Kung Fu, quer dizer que ela atingiu a arte da excelência no que faz.
A arte da excelência#
Vlad pergunta: “o que é bom Kung Fu, e o que seria o péssimo Kung Fu?”
Marcio responde que bom Kung Fu atinge um grau de maestria naquilo que se está fazendo, com análise a fundo do que está sendo feito. E Kung Fu ruim seria o que não tem estrutura. Um Kung Fu que não está baseado em um sistema não permite checar separadamente o que precisa melhorar.
O Comentário do Si Fu#
Si Fu pega a palavra “excelência” e divide uma cultura paralela.
Em grego, excelência se chama aretê. Mas o conceito grego não é no sentido ocidental moderno de “desenvolver uma habilidade ótima”. É muito mais parecido com a ideia de não ter desperdícios. Fazer precisamente aquilo que precisa ser feito, nem mais, nem menos.
O que sustenta o conceito é outra palavra grega, cosmos. Cosmos significa organização. Uma complexidade organizada. E essa é uma organização datada. Um modo de pensar o mundo específico daquela cultura e daquele momento, não uma categoria universal que funcione em qualquer lugar.
Nesse cosmos, cada coisa tem sua função. Aretê é cumprir a própria função dentro dessa organização, com precisão.
Si Fu toma a profissão do Marcio como exemplo: Marcio é corretor de imóveis. A profissão dele, nas palavras do Si Fu, “coloca pessoas dentro de casas”.
“Você pode vender o imóvel A e o imóvel B. E o imóvel B pode te dar até mais comissão que o imóvel A. Mas você vai botar pessoas dentro daquele imóvel. E aí tem a escola, tem os vizinhos, tem uma série de coisas. Pensa em quanta gente já mudou por causa da sua profissão.”
Aretê em imóveis não é vender mais. Não é vender melhor. Não é vender o imóvel mais caro. Não é ter melhores técnicas de venda. É colocar aquela pessoa na melhor casa que ela pode ter, ou ajudá-la a estar lá.
Aretê é fazer precisamente o seu papel dentro do sistema que você habita, nem mais, nem menos.
Por isso aretê é parecido com Kung Fu. Não se julga por fora. Se reconhece por dentro, a partir do próprio critério de função cumprida.
Glosa#
Eu uso muito a frase “a excelência precisa ser um hábito”, que achava que vinha do Aristóteles. Mas na verdade é o resumo da Ética a Nicômaco feito pelo Will Durant.
Kung Fu é processo e resultado, ou seja, pode dar errado duas vezes. Se focarmos demais no processo, perdemos os resultados e vice-versa. O bom Kung Fu irá elevar a capacidade de interagir com as situações, o quanto se consegue extrair de qualquer experiência. Não há como julgar, cabe apenas ao próprio praticante conseguir melhorar frente a si mesmo.
