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❝ Citação

Guardem a minha coroa

Rubião, professor pobre de Minas Gerais, herdou a fortuna de Quincas Borba e, com ela, a doutrina do Humanitismo. Mudou-se para o Rio, foi explorado pelo casal Cristiano e Sofia Palha, dilapidou o capital, perdeu a razão. Nos últimos capítulos, vive entre delírios em que se julga Napoleão III, depois imperador do Brasil. A cena do capítulo CC mostra Rubião encenando a coroação no cubículo onde mora. Coloca na cabeça uma coroa imaginária, recomenda à plateia inexistente que a guarde, murmura algo sobre o vencedor — frase truncada — e morre poucos dias depois.

A cena fecha o livro com simetria precisa. Rubião herdou o sistema do filósofo, que prometia ser “a chave de todas as coisas”, e termina nu, sem dinheiro, em estado mental deteriorado, recitando a frase do mestre sobre as batatas que ninguém lhe deu. O capítulo CCI, que sucede e encerra o romance, mostra o cachorro também chamado Quincas Borba (presente do filósofo morto) seguindo o caixão, aguardando o dono. O cão e o homem morrem com o mesmo nome, e o narrador, no parágrafo final, dirige-se ao Cruzeiro do Sul indagando se importa distinguir lágrimas humanas e gemidos animais.

A interpretação canónica é de Roberto Schwarz e Augusto Meyer. O Humanitismo prometia que a morte não existe, que as expansões se conservam, que toda perda é apenas mudança de forma. Rubião põe à prova: perde tudo, é absorvido pelo “princípio universal”, e o livro registra a operação como destruição sem reciclagem. A doutrina foi aplicada e produziu o resultado contrário ao prometido. Machado usa a tragédia do discípulo para demolir a teodiceia oitocentista das filosofias da história — Comte, Spencer e seus simulacros tropicais.