Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas
O capítulo VI traz a parábola que o filósofo Quincas Borba narra ao discípulo Rubião para ilustrar o Humanitismo — sistema filosófico inventado pelo personagem, paródia machadiana das filosofias deterministas em voga (positivismo de Comte, darwinismo social de Spencer). Duas tribos famélicas disputam um campo de batatas que só basta para uma. Se dividirem, ambas morrem de inanição; se uma exterminar a outra, a sobrevivente atravessa a montanha e encontra mais. A paz é destruição, a guerra é conservação.
A frase final fecha a parábola e tem dois movimentos simétricos. Ao vencido, ódio ou compaixão indica a alternância dos sentimentos do vencedor pelo derrotado, sem efeito prático. Ao vencedor, as batatas indica o efeito real: o que importa é quem fica com o campo. Os afetos morais sobre a derrota são opcionais, a posse das batatas não é.
O Humanitismo é caricatura, mas a caricatura tem alvo preciso. Quincas Borba reformula em chave grotesca a lei do mais forte, e Machado faz disso desmascaramento da elite imperial brasileira que naturalizava a desigualdade com vocabulário científico. Nos romances tardios, o termo humanitas torna-se chave irônica para nomear qualquer racionalização que disfarce de princípio cósmico aquilo que é apetite de tribo.
