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A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos

O conto “Pai contra Mãe” é dos mais duros de Machado. Foi publicado em 1906, em Relíquias de Casa Velha, dezoito anos depois da Abolição. A primeira frase é catálogo: a escravidão levou consigo ofícios e aparelhos. O narrador descreve em seguida a máscara de folha-de-flandres usada para impedir que escravos comessem terra ou bebessem cachaça, a gargalheira de ferro com hastes que feria o pescoço quando o cativo deitava, o ferro de marca, o vergalho.

O propósito do inventário é colocar o leitor pós-abolição diante da memória material que a Lei Áurea não tinha enterrado. Machado escreve para um público burguês carioca que já trata a escravidão como passado distante e se autoeloquia pela manumissão. O conto mostra, sem aviso, que esse passado é vinte anos atrás, que ainda há gente viva que usou aqueles instrumentos. O catálogo é ato de memória material contra o esquecimento conveniente.

O enredo confirma o tom. Cândido Neves, branco pobre, é caçador de escravos fugidos — ofício também extinto. Persegue Arminda, escrava grávida em fuga, e a captura para receber a recompensa de cem mil-réis necessária à sua própria família. A captura provoca o aborto. Cândido recolhe o filho em casa, e a frase final do conto é a célebre observação cínica do narrador: “Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração”. Machado não distribui culpa fácil. Cândido é vítima do sistema que também faz dele algoz; Arminda morre de fato. O conto é dos mais explícitos do autor sobre a violência estrutural do regime escravista, e a partir dele a leitura “branca” de Machado, dominante no início do XX, foi sendo desmontada.