Memorial de Aires
O Memorial de Aires foi publicado em 1908, ano da morte de Machado, e é o nono e último dos seus romances. A forma é diário do Conselheiro Aires — diplomata aposentado já visto em Esaú e Jacó — que registra entre janeiro de 1888 e agosto de 1889 a vida de pequeno círculo do Rio de Janeiro: o casal Aguiar (sem filhos), a viúva Fidélia, o moço Tristão (afilhado dos Aguiar). Os dois jovens se aproximam, casam-se e partem para a Europa, deixando os Aguiar de novo sozinhos.
A escolha estrutural importa. Machado renuncia ao narrador onisciente e ao narrador-protagonista (o defunto, o Dom Casmurro) e adota o narrador-testemunha. Aires não é o sujeito da história; é o velho que olha de fora, anota, comenta em voz baixa, hesita em julgar. O efeito é uma redução de temperatura. Não há ironia cortante, não há sátira de filosofia, não há grande tese. Há atenção lenta a uma série de movimentos íntimos.
A crítica machadiana lê o livro como ponto de chegada de uma poética. Antonio Candido, John Gledson e Roberto Schwarz observam que a prosa do Memorial atinge claridade nova — a frase é mais limpa, o juízo mais retido, a relação com os personagens mais piedosa. O título inclui a palavra memorial, que em português jurídico significa peça de defesa. Aires defende esses afetos pequenos da abrasão do tempo escrevendo-os, e o livro inteiro tem o tom do que se anota antes de morrer.
