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A Igreja do Diabo

O conto começa com fórmula de manuscrito beneditino: certo dia o Diabo teve a ideia de fundar uma igreja. Foi ao céu propor a Deus o estatuto. Deus aceitou — e o Diabo desce, abre seminário, escreve doutrina, ordena clero. As regras invertidas: o que era pecado vira virtude, e vice-versa. A inveja, a soberba, a luxúria, a avareza promovem-se a deveres. A humildade, a paciência, a castidade demovem-se a vícios.

A multidão adere em massa. O Diabo regozija-se com a apostasia universal. Volta ao céu para anunciar o triunfo. Deus o detém com observação: olhe melhor. O Diabo desce e investiga. Descobre, sob a fachada de novos vícios autorizados, focos persistentes de virtude clandestina. Os fiéis dão esmolas em segredo, passam fome para alimentar família, perdoam ofensas. A nova religião está sendo traída pelos seus próprios devotos, que retornam às virtudes antigas pela porta dos fundos. “É a eterna contradição humana”, conclui Deus.

A piada teológica é precisa. Machado mostra que o sujeito carece de moral fixa e tem apenas necessidade de transgredir. Inverta o código e ele inverterá a transgressão. O conto antecipa, em um terço de página, a tese que Nietzsche desenvolveria em Para a genealogia da moral sobre o ressentimento e a inversão de valores. A diferença é de tom: Machado se diverte, Nietzsche acusa. Em ambos os casos, o pressuposto é o mesmo: a moral é função, e não substância.