Coisas futuras!
O penúltimo romance de Machado abre com a cena da consulta. Natividade e Perpétua, duas senhoras da elite carioca, sobem o morro do Castelo para ouvir a cabocla, vidente popular, sobre o destino dos meninos Pedro e Paulo, ainda crianças. A cabocla profetiza “Coisas futuras!” e diz que os meninos terão futuro grande. O detalhe que Natividade insiste em decifrar é se a luta entre os gêmeos, que ela sente desde a gravidez, terá significado.
A construção do romance gira em torno da indeterminação dessa profecia. Pedro será monarquista, Paulo republicano; os dois disputam tudo, da política ao amor de Flora. O Conselheiro Aires, narrador cético e diplomata aposentado, observa o conflito sem tomar partido e sem oferecer chave de interpretação. A profecia serve menos como vaticínio que como espelho do leitor: quem traduz “coisas futuras” como triunfo está projetando expectativa sobre dado inerte.
O romance dialoga com o capítulo do Gênesis (Esaú e Jacó disputando a primogenitura desde o ventre de Rebeca) e com a cena política do fim do Império: 1888 (Abolição) e 1889 (Proclamação da República) acontecem durante a narrativa. Machado distribui simpatia entre os dois irmãos sem aderir a nenhum, e o efeito é diagnóstico do ambiente brasileiro como teatro de oposições retóricas mais que de divergências substantivas. Pedro e Paulo são gêmeos: divergem em fachada e coincidem em fundo.
