Dom Casmurro
O capítulo I é breve e estabelece a chave do livro. Bento Santiago conta como ganhou o apelido. Numa viagem de trem para o Engenho Novo, um poeta vizinho começou a recitar versos. Bento cochilou. Ofendido, o poeta passou a chamá-lo “Dom Casmurro” pelo bairro. O Dom é irónico (sugere ares de fidalgo), e casmurro — diz o narrador — não tem aqui o sentido dicionarizado, vale por taciturno e calado.
O capítulo encerra explicando que o livro reaproveita o apelido como título. O autor toma para si a alcunha que outro inventou, e faz dela ficha de identidade. O gesto é importante para a leitura do romance inteiro: o narrador admite na primeira página que sua reputação é fabricada por terceiros, e, mesmo assim, escolhe vesti-la. Tudo o que vier a seguir está sob o signo dessa adesão deliberada a uma versão alheia de si.
A crítica machadiana posterior, sobretudo a partir de Helen Caldwell em The Brazilian Othello of Machado de Assis (1960), tira do capítulo I a chave para desconfiar do narrador. Bento Santiago é um homem que aceita ser chamado pelo nome que outro lhe deu por má vontade, e que reconta a vida segundo essa nomeação. A leitura realista de Capitu adúltera, por décadas dominante, perde fundamento quando se nota que o livro avisa, no primeiro capítulo, que o título já é uma calúnia.
