Olhos de ressaca
O capítulo XXXII é dos mais antologizados do livro. Bento descreve os olhos de Capitu, que olham para dentro dele como uma onda de ressaca puxa o nadador para dentro do mar. A figura tem força porque combina movimento e direção: a ressaca opera como correnteza submersa, e não como tempestade visível, age abaixo da superfície calma e arrasta apesar da resistência.
A passagem retoma e substitui a fórmula de José Dias no cap. XXV, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Bento rejeita o adjetivo do agregado, busca comparação melhor, hesita, propõe Tétis e o mar, e finalmente decide pela ressaca. O capítulo é meta-descritivo: mostra Bentinho procurando palavra, e isso interessa ao leitor mais do que a palavra em si. O olhar de Capitu permanece objeto que requisita esforço retórico, sem nome único.
Crítica machadiana subsequente lê o capítulo como armadilha. Helen Caldwell, em 1960, e depois Alfredo Bosi e John Gledson, observaram que a metáfora de ressaca carrega a tese do narrador (Capitu o arrastou) sob aparência de descrição neutra. O leitor que aceita a beleza da figura aceita também o julgamento. O texto é construído para que se confunda admiração estética com prova judicial.
