Olhos de cigana oblíqua e dissimulada
A frase é dita por José Dias, agregado da casa de Bento, e descreve os olhos de Capitu, então adolescente. Oblíqua sugere olhar enviesado, que não encara de frente; dissimulada sugere olhar que esconde. Como retrato de outra pessoa, é caracterização rasa que retoma topoi populares: a cigana, no imaginário do século XIX, era figura associada a astúcia e engano, vocabulário que carrega preconceito étnico de fundo.
A formulação importa porque é José Dias quem a põe em circulação. Ele é o agregado que vive de favores, e seu juízo sobre Capitu serve aos interesses da casa Santiago, contrária ao casamento de Bentinho com a vizinha pobre. A linha de classe é explícita: a Pádua “não é de todo má”, apesar dos olhos. O elogio é concessão, e a concessão revela a hierarquia.
A frase reaparece no capítulo XXXII, intitulado “Olhos de Ressaca”, quando Bento, olhando Capitu de perto, recupera a sentença de José Dias e a transforma em outra coisa. O que era retrato moral vira metáfora marítima: ressaca, sim, ressaca. Bentinho leu a sentença alheia e a converteu em afecto próprio. A leitura crítica observa que o romance inteiro orbita a dúvida de quem foi o autor original do retrato: o agregado calculista ou o marido enciumado.
