O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida
O capítulo II explica a gênese do livro. Bento Santiago, agora velho, mandou construir uma casa em Engenho Novo idêntica à casa da Mata-Cavalos onde passou a infância. Os mesmos retratos, a mesma decoração. O propósito declarado é atar as duas pontas da vida (a meninice e a velhice), restaurar na velhice a adolescência. A construção falhou, diz o narrador. As duas pontas não se encontraram. Daí a necessidade do livro: o que a casa não conseguiu fazer com tijolos, o livro tentaria com palavras.
A frase importa como projeto declarado. Bento confessa que a memória é insuficiente, que precisa de adereço (primeiro a casa, depois o livro) para tentar costurar o que o tempo cortou. Mas o projeto é vão por construção. Atar pontas pressupõe que o que está no meio possa ser ignorado, ou que as pontas mantenham forma original. O que a velhice sutura à infância não corresponde à infância da infância: é a infância tal como a velhice precisa lembrar.
O livro de Bento é vida refeita, não vida recuperada. Tudo o que vier depois (o seminário, Capitu, Escobar, o casamento, a suspeita, a separação) passa por essa instância narradora que tem interesse em produzir uma história plausível para chegar de volta à própria meninice e fazer dela motor da velhice. A frase é o aviso técnico do livro: o leitor está lendo costura, não tecido.
