Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia

O conto abre com a frase: “Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia.” A citação remete a Hamlet I.5, onde o príncipe responde ao amigo cético depois do encontro com o espectro do pai. Machado faz três usos distintos da referência ao longo do conto, conforme estudo de Earl E. Fitz e a tradição crítica do tema (Marta de Senna, Citações e alusões na ficção de Machado de Assis).

A frase opera como prólogo cético. Camilo, racionalista, ridiculariza a crença de Rita em cartomante. Rita devolve, sem saber que está traduzindo Shakespeare, que há muita coisa misteriosa e verdadeira no mundo. A “filosofia” que dorme nos olhos de Camilo é a filosofia do bom-senso burguês, e o conto vai mostrar a sua falha por demonstração: a cartomante acerta o que não devia acertar, e Camilo morre por não ter tomado a sério o aviso.

A operação de Machado com a citação não é endosso místico. A epígrafe é mais arma irónica do que tese: o leitor é convidado a ver Camilo como filho de uma certeza estreita, mas também a desconfiar da consolação fácil que Rita extrai do universo paralelo das cartas. O conto fecha em ironia plena — Camilo morre justamente porque a previsão da cartomante o tranquilizou. A “filosofia” que sonha mais coisas continua dormindo de olhos abertos.