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❝ Citação

Daquela linha sairia tudo, num desfecho macabro

O conto narra o triângulo entre Vilela, Rita (mulher dele) e Camilo (amigo de Vilela e amante de Rita). Vilela começa a desconfiar; Camilo recebe bilhetes anônimos; Rita o leva à cartomante que ela já consultava. A mulher das cartas afirma que tudo vai bem, que os amantes não serão descobertos, que o ciúme é infundado. Camilo sai aliviado e segue para a casa de Vilela, que o havia chamado por bilhete urgente. Lá, encontra Vilela e o cadáver de Rita. Vilela o mata.

A frase que sintetiza o conto não está na epígrafe de Hamlet citada no início: aparece na sentença final, em que o tiro de Vilela cumpre o que a cartomante negara. A ironia é dupla. Camilo, racionalista declarado, foi enganado pela superstição que a cartomante prometia dissipar, justamente porque a queria boa notícia. E o universo místico que a epígrafe de Hamlet abriu como possibilidade revelou-se universo do acaso fatal, e não da clarividência.

O conto é técnica machadiana em estado puro. Ela combina suspense (o leitor sabe o que Camilo não sabe), ironia situacional (a previsão sossega o personagem na hora errada), e a recusa do moralizante. Machado não pune Camilo por adultério — pune-o por crer naquilo que o tranquilizou. A “filosofia” zombada por Hamlet é a filosofia da consolação fácil, da boa nova, do horóscopo que diz o que se quer ouvir.