Matamos o tempo; o tempo nos enterra
A frase aparece como segundo aforismo do capítulo “Parêntesis”, série de máximas que o narrador finge ter rejeitado. O efeito vem da bissetriz semântica do verbo matar. Quando o sujeito é “nós”, o verbo é figurado: gastar tempo em distrações é matar o tempo num sentido elástico, próximo a “preencher”. Quando o sujeito é “o tempo”, o verbo é literal: o tempo enterra fisicamente, sem metáfora.
A inversão expõe a desproporção entre os dois lados da fórmula. Imaginamos exercer poder sobre o tempo (matamos uma tarde lendo, conversando, jogando), mas o que de fato se passa é o inverso. O tempo não imita nosso esforço retórico, ele cumpre o seu sentido próprio — sepulta. A simetria sintática esconde a assimetria do real.
O aforismo é coerente com a estrutura do livro inteiro. Brás Cubas escreve do túmulo, no qual o tempo já o pôs. A frase, dita por defunto, soa como notícia de quem viu a parte de baixo da metáfora.
