Obra de finados
O prólogo “Ao leitor” antecede a dedicatória ao verme e o capítulo I. É assinado por Brás Cubas, e não pelo autor histórico Machado de Assis. O deslocamento ficcional começa aí. Brás Cubas se apresenta como narrador defunto e classifica a obra como pertencente ao gênero das tradições literárias menores e excêntricas: “obra difusa”, em que adotou “a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre”.
A linhagem importa. Laurence Sterne, autor de Tristram Shandy (1759-1767), é o modelo da prosa digressiva, fragmentada, metanarrativa, em que o livro fala de si mesmo enquanto o enredo se atrasa. Xavier de Maistre, autor de Voyage autour de ma chambre (1794), é o modelo da micrografia: narrar miudezas em vez de aventuras grandes. Brás Cubas anuncia o livro como pertencente a essa tradição, que na poética europeia oitocentista era considerada periférica e “difusa”, e na poética dominante brasileira, que ainda era romântica, era ainda mais marginal.
A passagem é indispensável para situar a invenção machadiana. Em 1881, Machado escolhe deliberadamente um modelo do XVIII britânico contra o realismo francês contemporâneo (Flaubert, Zola), que a crítica brasileira esperava ver imitada. O livro responde ao realismo de outra maneira: não com descrição minuciosa do mundo social, mas com dissecação da consciência narradora, com a posse satírica do dispositivo da narração. Daí a fortuna crítica posterior. Susan Sontag chamou Machado, em ensaio de 1990, de “antecipador” do romance modernista, embora o termo precise da ressalva de que Machado tem antecedentes próprios em Sterne e Maistre, e não emerge do vazio.
