Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante
Pascal escrevera nos Pensamentos (fragmento 200 da edição Brunschvicg): “L’homme n’est qu’un roseau, le plus faible de la nature; mais c’est un roseau pensant.” Brás Cubas opera substituição: troca roseau (caniço) por errata (lista de erros impressos numa folha extra do livro). A homofonia conceitual permite a piada — em ambos os casos o homem é descrito por um suplemento frágil, um item que se anexa a algo maior.
A diferença é a moldura. Pascal tira da fragilidade do caniço uma dignidade: o homem é fraco mas pensa, e nesse pensamento reside sua superioridade sobre o universo que o esmaga. Machado tira da figura da errata o sinal contrário: o homem é um corrigendum, isto é, um lugar onde algo deu errado e foi preciso reparar. A consciência é, na imagem, a folha solta que vem depois para marcar o erro do volume principal.
A frase aparece num livro que se apresenta como suplemento póstumo (memórias escritas depois da vida). A figura da errata duplica essa estrutura: livro defeituoso pede errata, vida defeituosa pede memórias. Brás Cubas é o defeito que se anota a si mesmo.
