Sou um defunto autor, para quem a campa foi outro berço
O capítulo I abre com hesitação metanarrativa: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.” A escolha é a morte, e a frase que justifica vem em seguida — Brás Cubas se identifica como defunto autor para quem a sepultura foi um segundo berço.
A diferença que Machado insiste em marcar é a ordem dos termos. “Autor defunto” seria descrição comum: alguém que escreveu e depois morreu. “Defunto autor” inverte: alguém que morreu e depois escreveu. A condição de defunto não termina o ofício, instaura-o. O livro é produzido a partir da morte, não apesar dela.
A fórmula libera o narrador de duas pressões. Da pressão do leitor contemporâneo, porque o defunto não tem mais reputação a defender. E da pressão da verossimilhança realista, porque o solo do romance já não é este mundo. As liberdades do livro — digressões, apóstrofes ao leitor, capítulos negativos, o “Delírio” — partem dessa ficha de identidade pendurada na primeira página.
