Restituo a liberdade ao meu escravo Pancrácio
Seis dias depois da Lei Áurea (13 de maio de 1888), Machado publica na Gazeta de Notícias uma crônica anônima da série “Bons Dias!”. O cronista narra um banquete em sua casa em que, entre amigos, ergue uma taça e declara que está restituindo a liberdade a Pancrácio. Proclama que segue ideias pregadas por Cristo dezoito séculos antes, que liberdade é dom de Deus e que a nação inteira deveria seguir o exemplo.
A piada se desmonta nos parágrafos seguintes. O escravo havia sido liberto pela Lei seis dias antes; o gesto do anfitrião não dá nada, encena o que já aconteceu por imposição legal. Pior: o cronista convida Pancrácio para continuar trabalhando na casa pelo “amor da nossa família”, e o liberto aceita. A liberdade declarada vira ato simbólico que reproduz a sujeição material.
A crônica é peça-chave para desmontar a leitura de Machado como autor recolhido em ironia distante e indiferente à questão racial. O texto é cirúrgico: identifica a manobra retórica das elites pós-Abolição (apropriar como gesto pessoal o que tinha sido luta dos escravizados) e expõe o trabalho assalariado emergente como continuação do trabalho escravo por outros meios. O nome do escravo é Pancrácio, que em grego significa “todo-poderoso”, apelido vazio para o que é o mais subordinado dos personagens. Machado escreve, em 1888, parte do que historiadores como Sidney Chalhoub e Lilia Schwarcz desenvolveriam quase um século depois.
