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❝ Citação

A ciência é o meu único emprego; Itaguaí é o meu universo

A frase é dita por Simão Bacamarte logo nas primeiras páginas, quando justifica a recusa de cargos régios e o regresso a Itaguaí. Machado constrói o personagem como tipo: filho da nobreza local, “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”, instala-se na vila pequena para fundar a Casa Verde, primeiro hospício da Colônia. A escala do projeto contrasta com a escala do lugar: ciência universal, mas Itaguaí é o universo.

O paradoxo é deliberado. Bacamarte recusa o macrocosmo régio e adota o microcosmo provincial como laboratório completo. O movimento parece humildade — ficar em casa, servir aos vizinhos. É soberania disfarçada. Quando Itaguaí inteira se torna o seu universo, todas as suas fronteiras viram fronteiras científicas, e tudo o que se passa nela vira objeto de classificação. A frase autoriza o que vem depois: a internação progressiva da população, primeiro dos visivelmente loucos, depois dos suspeitos, depois dos sãos, finalmente do próprio Bacamarte.

O conto é parodia precisa do positivismo médico do XIX e da ascensão da psiquiatria como saber autorizado a definir normalidade. Machado escreve em 1882, dez anos antes de Foucault não ter ainda nascido, e antecipa a tese central da História da Loucura: a fronteira entre razão e desrazão é traçada por quem detém o instrumento de classificar, não por quem é classificado. A frase é o decreto inicial dessa soberania.