Um país se faz com homens e livros
A frase aparece com tanta frequência em campanhas de leitura, cartazes escolares e citações de redes sociais que se tornou suspeita de apocrifia, ao lado de “uma criança que lê será um adulto que pensa” e formulações similares atribuídas a vários autores. A suspeita não procede no caso desta. O trecho consta na página 45 de “América: os Estados Unidos de 1929”, livro de Lobato publicado pela Companhia Editora Nacional em 1929 e reeditado pela Brasiliense em 1948. O contexto editorial completo é: “Um país se faz com homens e livros. Minha visita aos monumentos de George Washington e Lincoln provou-me que a América tinha homens. Ter homens, para um país, é ter Washingtons e Lincolns, forças tão marcantes que sobre sua obra não pode a morte.”
A formulação é parte do projeto de Lobato como editor e propagandista. “América” é livro de impressões da viagem aos Estados Unidos como adido comercial brasileiro entre 1927 e 1931, escrito num registro misto de admiração técnica e crítica nacional. A equação entre país, homens e livros é coerente com a campanha que Lobato moveria nas duas décadas seguintes pela industrialização editorial brasileira, pelo livro barato e pela formação do leitor infantil. O Lobato que publica essa frase em 1929 é também o que reformou a Companhia Editora Nacional e fundou o circuito moderno do livro brasileiro.
A circulação do trecho em forma reduzida obscurece o restante. Na frase original Lobato está dizendo, especificamente, que a América tem homens porque tem Washington e Lincoln. A passagem isolada vira slogan motivacional sobre leitura. Lida no contexto, é mais do que isso, e também menos: argumento sobre a importância de fundadores monumentais para a identidade nacional, com livros e homens funcionando como termos pareados de formação cívica. O Lobato dos anos 1929 ainda lê os Estados Unidos como modelo de país que soube fazer-se.
