Tudo vem dos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos
A frase “Tudo vem dos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos” aparece na página 111 de “América: os Estados Unidos de 1929”, livro de impressões da longa estadia de Lobato nos Estados Unidos como adido comercial brasileiro entre 1927 e 1931. A formulação difere da frase mais célebre do mesmo autor sobre a “loucura ou sonho no começo” (Obras Completas, p. 178). Aqui o registro é mais técnico: o sonho funciona como primeira fase da execução, sem o vocabulário do delírio que aparece na outra formulação.
A sequência operativa “primeiro sonhamos, depois fazemos” tem coerência com o que Lobato observa nos Estados Unidos. A indústria americana, os arranha-céus de Manhattan, a engenharia das estradas e a multiplicação das cidades são todos resultados, na narrativa do autor, de projetos formulados antes em forma mental e executados depois em forma material. A sequência é determinista e otimista: o que se sonha pode ser feito; o que não se sonha não chega a existir. O argumento opera como crítica indireta ao Brasil, que, segundo o autor, sonha pouco e portanto produz pouco.
A frase teve circulação como aforismo motivacional, com leitura simplificada que apaga o contexto operativo. Lobato não está dizendo que basta sonhar para que aconteça. Está dizendo que sem a fase de projeção imaginativa, nenhuma execução acontece. A oposição é entre país que sonha grande e país que não sonha. A campanha pelo petróleo brasileiro, que Lobato moveria a partir do início dos anos 1930, parte exatamente desse diagnóstico: o país tem o recurso natural, falta o sonho industrial. A frase de “América” é antecedente teórico do que o autor passaria a fazer politicamente nos anos seguintes.
