A tradução literal trai e mata a obra traduzida
A passagem de Lobato sobre tradução se sustenta em distinção operativa entre forma e ideia: “A tradução literal, isto é, de absoluta fidelidade à forma literária em que, dentro de sua língua, o autor expressou o seu pensamento, trai e mata a obra traduzida. O bom tradutor deve dizer (…) a mesma coisa (…) mas dentro da língua do tradutor (…) só assim estará realmente traduzindo o que importa: a ideia, o pensamento do autor. Quem procura traduzir a forma (…) não faz tradução. Faz uma coisa horrível chamada transliteração (…) ininteligível.”
A posição vem da prática. Lobato traduziu, em registro próprio, dezenas de livros do inglês ao português brasileiro: H. G. Wells (incluindo “O Destino do Homo Sapiens”, título alternativo dado por Lobato), Rudyard Kipling, Mark Twain, Ernest Hemingway, Lewis Carroll, Robinson Crusoé. As traduções de Lobato são reescrituras: o autor adapta dialogo, recorta cenas longas, troca referências culturais inglesas por brasileiras quando o contexto pede, e despeja a sintaxe portuguesa rígida em favor da prosa solta brasileira. O resultado tem público leitor por gerações no Brasil.
A defesa lobatiana antecipa, em registro popular, distinções que Antoine Berman e a teoria francesa da tradução desenvolveriam nos anos 1980 entre tradução etnocêntrica e tradução estrangeirizante. Lobato é radicalmente etnocêntrico no vocabulário de Berman: o tradutor traz o autor estrangeiro para a língua de chegada, e a fidelidade verdadeira está no sentido, não na forma. A posição tem custo conhecido pela teoria contemporânea da tradução, que tende a privilegiar a fidelidade formal. Para Lobato, no entanto, a tradução literal é exatamente o que produz texto morto, ininteligível e sem leitor. A frase sobre transliteração funciona como diagnóstico de muito do que circulava como tradução portuguesa de inglês na primeira metade do século XX.
