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❝ Citação

Progresso amigo, tu és cômodo, és delicioso, mas feio

“Os Faroleiros” é um dos quatorze contos de “Urupês” (1918) e tematiza a vida na ilha-farol, em situação de isolamento extremo. A formulação que dá título a esta nota é apóstrofe à categoria abstrata, no registro retórico de quem fala diretamente ao Progresso como personagem alegórico:

Progresso amigo, tu és cômodo, és delicioso, mas feio.

A frase concentra a ambivalência do narrador diante da modernização que então transformava o litoral brasileiro com faróis automáticos, navegação a vapor e equipamento técnico industrial.

A oposição entre conforto e fealdade é precisa em Lobato. O Progresso, que ele defende em outras obras como caminho necessário do Brasil, é descrito esteticamente como feio: as máquinas, as estruturas industriais, os materiais brutos da modernização não têm a beleza da paisagem natural ou do ofício artesanal que substituíram. A constatação é honesta: o Progresso é cômodo (resolve o problema), é delicioso (oferece bem-estar imediato), e é feio (substitui o belo pelo eficiente). A frase reconhece a perda estética que acompanha a melhoria material.

A posição é menos contraditória do que parece quando lida em conjunto com a obra. Lobato é progressista militante na campanha pelo petróleo, pelo ferro, pela indústria editorial e pela pedagogia moderna. Mas é sensível ao custo estético da modernização e admite, no registro literário, que a beleza tem preço. O conto “Os Faroleiros” coloca essa tensão em narrativa: a vida do faroleiro é confronto direto entre a técnica que substitui o homem e o homem que ainda precisa morar com a técnica. A frase apostrofadora ao Progresso é resumo do dilema, formulado com economia de meios. A apóstrofe ainda guarda traço da retórica romântica do século XIX que Lobato em outros lugares ataca, e nesse traço se vê a complexidade da posição estética do autor.