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País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país perdido para altos destinos

A carta a Arthur Neiva, datada de 10 de abril de 1928, é um dos documentos mais reproduzidos da fortuna crítica sobre o racismo em Lobato. Arthur Neiva era médico sanitarista, parceiro de Belisário Penna nas campanhas de saneamento rural cujos relatórios haviam mudado a opinião de Lobato sobre o Jeca Tatu uma década antes. Em 1928, Lobato escreve a Neiva da posição de adido comercial brasileiro nos Estados Unidos, onde residia desde o ano anterior. O trecho integral é:

País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (sic), é país perdido para altos destinos. André Siegfried resume numa frase as duas atitudes. ‘Nós defendemos o front da raça branca — diz o Sul — e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil’. Um dia se fará justiça ao Klux Klan (…) que mantém o negro no seu lugar.

A passagem é documento histórico, registro escrito de posição declarada. A Ku Klux Klan operava nos Estados Unidos com força paramilitar declarada nos anos 1920, e a “segunda Klan” tinha milhões de membros. André Siegfried, geógrafo francês citado por Lobato, era autor de “Les États-Unis d’aujourd’hui” (1927), livro que circulava em São Paulo. A tese eugenista que Lobato sustenta na carta, segundo a qual a mestiçagem brasileira seria empecilho para “altos destinos” e a segregação norte-americana funcionaria como modelo, é coerente com posição que ele defenderia também em “O Choque das Raças” (1926), romance em que projeta para os Estados Unidos do ano 2228 conflito racial concluído pela esterilização da população negra.

A correspondência privada de Lobato contém outras passagens da mesma natureza. À Godofredo Rangel, em 1908: “Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis.” Ao mesmo Rangel, em data posterior sobre “O Choque das Raças”: “Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” A datação dos documentos importa para a periodização. Lobato é eugenista declarado pelo menos a partir de 1908 e a posição se mantém na correspondência dos anos 1920 e 1930. Há tensão entre essas cartas e textos publicados como “Negrinha” (1920), em que a denúncia da escravidão doméstica é explícita, mas a contradição é interna ao autor, não invenção da fortuna crítica posterior. A carta a Arthur Neiva é peça do dossiê documental, não inferência.