Os gramáticos não são donos da língua, e esta não é uma criação lógica
A frase resume posição que Lobato sustentou a vida toda contra a normatização gramatical da língua portuguesa por academias e por reformas ortográficas oficiais. A formulação completa é seca: “Os gramáticos não são donos da língua, e esta não é uma criação lógica.” A primeira oração ataca a autoridade do gramático sobre o uso, a segunda nega a base racionalista da normatização: a língua não foi construída por dedução lógica, e portanto não pode ser corrigida por dedução lógica.
A posição é radical no contexto brasileiro do início do século XX, em que a gramática histórica de Said Ali e os manuais normativos derivados dominavam o ensino. Lobato escreve em registro coloquial, usa próclise onde o purismo lusitano exigia ênclise, prefere o português brasileiro falado ao português literário lisboeta. A produção infantil é o laboratório principal dessa posição. Emília fala como criança paulista de classe média, não como personagem alegórica em registro elevado. A escolha tem efeito histórico: a literatura infantil brasileira a partir de 1920 dispensa o português afetado.
A briga ortográfica de Lobato com o Acordo de 1943 é a outra face da mesma posição. Em carta de dezembro de 1937 reproduzida no mesmo volume, o autor reclamou: “Revoltado contra os acentos acadêmicos, usei do meu prestígio na Editora Nacional para uma guerra à excrescência e consegui que a empresa editasse centenas de milhares de livros com a ‘desacentuação’ exemplificada no livro que remeto como amostra.” Em carta de abril de 1944 a um deputado federal, chamou a reforma de Capanema de “infame” e o ministro de “ministro da imbecilização”. A briga era prática: Lobato considerava que a multiplicação de acentos gráficos onerava o leitor e a indústria editorial sem ganho linguístico. A frase sobre os gramáticos é o princípio sintetizado em uma linha.
