Não há livros, Rangel! Nós precisamos entupir este país com uma chuva de livros
A carta a Rangel datada de Caçapava, 16 de janeiro de 1915, anuncia o programa editorial que Lobato passaria a executar a partir do final da década. A formulação é direta: “Nossa crise monetária de vocábulos (…) Não há livros, Rangel!!! Nós precisamos entupir este país com uma chuva de livros (…).” A repetição dos pontos de exclamação, no original epistolar, é traço do registro privado que ele e Rangel mantinham nas cartas, e indica a intensidade do momento.
A datação importa. Em 1915, o Brasil tinha pouca indústria editorial nacional e dependia de importação de livros de Portugal e da França. As tiragens eram pequenas, os preços altos, e o público leitor era estreito. A frase de Lobato registra o diagnóstico da escassez como problema de circulação, não de produção intelectual. A intuição de que o país sofre de “crise monetária de vocábulos” — falta de palavras circulando, em sentido literal de oferta e demanda — antecipa em vinte anos o desenvolvimento dos estudos brasileiros sobre mercado editorial e cultura de massa.
A “chuva de livros” anunciada como missão tem desdobramento prático conhecido. Em 1918, Lobato compra a “Revista do Brasil”; em 1919, funda a Monteiro Lobato e Cia; em 1925, depois da falência por incêndio do depósito da editora, funda com Octalles Marcondes Ferreira a Companhia Editora Nacional. As três operações editoriais reduzem o preço médio do livro brasileiro, multiplicam tiragens, popularizam autores nacionais e estrangeiros e criam o circuito moderno de livraria e distribuição. A frase a Rangel, em janeiro de 1915, é manifesto privado de algo que se tornaria política empresarial pública. A “chuva de livros” foi literalmente concretizada — pelos próprios meios de Lobato, em escala que mudou a circulação do livro no Brasil.
