'O petróleo é nosso' — não é frase de Monteiro Lobato
Monteiro Lobato moveu, entre 1931 e 1937, a campanha mais conhecida da literatura brasileira pelo petróleo nacional. Os livros “Ferro” (1931), “O Escândalo do Petróleo” (1936) e a longa correspondência com Getúlio Vargas, com técnicos de mineração e com investidores estrangeiros documentam o engajamento. A campanha custou caro ao autor: em 1941, Lobato foi preso por seis meses no presídio Tiradentes pelas críticas ao Estado Novo na questão do petróleo. A associação entre Lobato e a defesa do petróleo brasileiro está, portanto, biograficamente justificada.
A frase específica “O petróleo é nosso”, no entanto, não foi cunhada por Lobato. A pesquisa histórica identificou o autor da formulação: Otacílio Raínho, professor e diretor do Colégio Vasco da Gama no Rio de Janeiro, que formulou o slogan em 1948 quando da fundação do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo (CEDP). A campanha popular pela nacionalização começou oficialmente em 21 de abril de 1948, no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, e culminaria na criação da Petrobras em 1953 sob o governo Vargas, com o slogan tornado lema do movimento.
A confusão entre Lobato e o slogan tem causa específica. Em 1948, dias antes da morte (4 de julho), Lobato concedeu entrevista à Rádio Record em São Paulo reafirmando posição favorável à nacionalização do petróleo. Em algumas reproduções secundárias dessa entrevista, a frase “o petróleo é nosso” aparece atribuída ao autor. A datação interna do material é difícil de fixar, e a maior parte dos historiadores sustenta que a entrevista de Lobato é simultânea ou ligeiramente anterior à formulação de Raínho, sem que se possa estabelecer prioridade autoral. A operação retórica que terminou consolidando Lobato como suposto autor do slogan tem fundo justificável: o livro de 1936 articulou tese semelhante. Mas a formulação exata “O petróleo é nosso” pertence a outra autoria, e o slogan da Petrobras tem origem militante distinta da militância individual de Lobato.
