O Homem que Calculava já me encantou duas vezes
A carta de Lobato a Júlio César de Mello e Souza, mais conhecido pelo heterônimo árabe Malba Tahan, foi escrita em São Paulo no dia 14 de janeiro de 1939. O destinatário publicara em 1938 “O Homem que Calculava”, livro de problemas matemáticos contados em forma narrativa, ambientado no mundo árabe medieval, que se tornaria um dos maiores sucessos editoriais brasileiros do século XX. Lobato, então com 56 anos, escreveu ao colega para registrar a admiração: “‘O Homem que Calculava’ já me encantou duas vezes e ocupa lugar de honra entre os livros que conservo.”
O conteúdo da carta articula análise editorial e elogio pessoal. Lobato lamenta que falte ao livro “um problema — o cálculo da soma de engenho necessário para a transformação do deserto da abstração matemática em tão repousante oásis”, e classifica a obra como “encarnação que ele é da sabedoria oriental — obra alta, das mais altas”. O elogio termina em invocação no registro orientalizante que tanto Lobato quanto Malba Tahan cultivavam: “Que Allah nunca cesse de chover sobre Malba Tahan a luz que reserva para os eleitos.”
A correspondência entre os dois autores é episódio interessante da literatura brasileira do entre-guerras. Lobato e Malba Tahan compartilhavam o mesmo programa editorial de fundo: a literatura como porta de entrada para conhecimento técnico (em Lobato, geografia, história, mitologia; em Tahan, matemática), com narrativa que serve à pedagogia. A carta de 1939 reconhece em Tahan o que Lobato fazia em registro próprio. A frase sobre “transformação do deserto da abstração matemática em tão repousante oásis” descreve, ao mesmo tempo, a obra de Tahan e o programa lobatiano da série do Sítio do Picapau Amarelo — o mesmo procedimento aplicado a outras matérias.
