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❝ Citação

O livro é uma mercadoria como outra qualquer

A entrevista à Rádio Record foi concedida poucos dias antes do espasmo cerebral que mataria Lobato em 4 de julho de 1948. A formulação completa, segundo a transcrição reproduzida pelo “Estado de São Paulo” em julho de 1978 nos trinta anos da morte, é: “O livro é uma mercadoria como outra qualquer; não há diferença entre o livro e um artigo de alimentação. (…) Se o livro não vende é porque ele não presta.”

A posição contraria o pudor literário corrente que separava obra e mercado, com o escritor isento da responsabilidade pelo destino comercial do livro. Lobato escreve, edita e vende livros desde a compra da Revista do Brasil em 1918 e a fundação da Companhia Editora Nacional em 1925. A experiência prática de quem reformou o mercado editorial brasileiro fundamenta a frase. Para Lobato, a inadequação entre livro e leitor é falha do livro, não desatenção do leitor.

A tese tem desdobramento direto na produção infantil. A série do Sítio do Picapau Amarelo foi pensada explicitamente para circular: linguagem coloquial, narrativa rápida, personagens que se prestam à serialização, capa e ilustração concebidas para o público escolar. Lobato não escreve para o cânone universitário; escreve para vender exemplares. A frase à Rádio Record, registrada às vésperas da morte, é coerente com essa orientação editorial sustentada por trinta anos. A formulação chocava parte da intelectualidade brasileira da época, que entendia a literatura como missão estética acima do comércio. Lobato registra que a oposição é falsa: livro que não circula não cumpre função alguma, estética inclusive.