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Felizmente estou com 62 anos e breve morro e fico livre de tudo

A carta de 18 de novembro de 1944 é parte da correspondência tardia de Lobato com Godofredo Rangel, ainda reunida em “A Barca de Gleyre”. O autor está com 62 anos, voltou da Argentina depois de uma temporada como editor em Buenos Aires e faltam menos de quatro anos para sua morte, em julho de 1948. O contexto histórico é o último ano da Segunda Guerra. Lobato escreve: “Felizmente estou com 62 anos e breve morro e fico livre de tudo — desta terra, destes governos, da luta armada e da futura paz, que você vai ver, sairá uma porcaria tão grande como foi a de depois de 1918.”

A previsão sobre a paz pós-guerra é específica e aplica analogia com 1918. Para Lobato, o Tratado de Versalhes do fim da Primeira Guerra produziu paz pior que a guerra, alimentou ressentimentos que produziram a Segunda Guerra, e a paz que viria depois de 1945 produziria efeitos comparáveis. A previsão acertou em parte: a Guerra Fria, a partição da Europa, as guerras coloniais da segunda metade do século XX e o estabelecimento da ameaça nuclear deram à frase um caráter de antecipação que a fortuna póstuma do autor encontra nela.

Mais peculiar é a continuação da carta. Lobato, que traduzira “O Destino do Homo Sapiens” de H. G. Wells, sustenta na carta a tese de que o Homo Sapiens “faliu” e que a sucessão na dominação do mundo deveria caber a outra espécie. Sua candidatura é o besouro. “Voto no besouro. Acho o besouro singularmente bem apetrechado para a dominação do mundo. É um safadinho que usa ‘asas dobráveis e guardáveis’” — aperfeiçoamento, observa Lobato, que não vemos em nenhuma outra espécie animal. A combinação entre pessimismo civilizacional e zoologia caprichosa é traço recorrente da correspondência tardia. Lobato, encarcerado em 1941 por divergências com o Estado Novo, e desiludido com Vargas, com a indústria nacional do petróleo e com a guerra mundial, registra na carta a Rangel um misto de exaustão pessoal e fantasia entomológica.