Excelente senhora, a patroa
A abertura do conto “Negrinha” é uma das passagens mais reproduzidas de Lobato e funciona como peça-modelo de ironia narrativa em prosa brasileira do início do século XX. O texto integral da abertura é: “Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — ‘dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral’, dizia o reverendo.”
A construção é impecável. A primeira frase elogia a senhora (“excelente”). A segunda detalha o elogio em sequência de adjetivos cuja escolha exata, “gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres”, torna o elogio insulto sem sair do registro afirmativo. A terceira coloca a senhora num trono que é cadeira de balanço da sala de jantar, com banhas entaladas. A quarta passa a palavra ao reverendo, que confirma a virtude. A operação retórica é o ataque por concessão: tudo que se diz da senhora é verdade, e tudo que se diz da senhora a destrói.
O conto inteiro é a história de uma menina negra mantida em condição de escrava em casa dessa “excelente senhora”, em data já posterior à abolição (1888). A patroa maltrata a menina por hábito, com violência cotidiana. O contraste entre a abertura virtuosa e o que se relata depois constrói a denúncia. Lobato escreve “Negrinha” em 1920, trinta e dois anos depois da Lei Áurea, e o conto registra que a abolição formal não acabou com a relação concreta de escravidão doméstica que persistia em casas brasileiras. O conto pertence à dimensão crítica do autor, e está em tensão produtiva com outras passagens da correspondência privada onde Lobato sustenta posições eugenistas. A obra publicada não é unívoca, e “Negrinha” é o lado em que a denúncia da crueldade racial é explícita.
