Eu adoro Emília
A passagem mostra a relação afetiva entre Lobato e a boneca de pano que se tornou a personagem mais conhecida da série do Sítio do Picapau Amarelo. A formulação é direta: “Eu adoro Emília e, ao escrever os livros nesta máquina, sou o primeiro que me rio das coisinhas que ela diz.” A frase confirma o procedimento de composição que se intui ao ler os livros: Lobato escreve as falas da Emília como autor que se diverte com a personagem, não como narrador que a controla.
Emília aparece pela primeira vez em “A Menina do Narizinho Arrebitado” (1920), como boneca de pano costurada por Tia Nastácia. Em “Reinações de Narizinho” (1931), ganha pílula falante do Doutor Caramujo e passa a falar. A partir daí, a personagem assume o protagonismo afetivo da série, atravessando “Memórias da Emília” (1936) e culminando como autora ficcional dentro da própria ficção. A Emília é o que Lobato deixa fugir do controle autoral. Ela diz o que ele não diria, contesta o narrador, ironiza Dona Benta, dispensa o Visconde de Sabugosa, brigando com a hierarquia adulta da narrativa.
A frase tem efeito retroativo sobre a leitura da série. Os leitores percebem na Emília a voz mais livre do conjunto, e a confissão de Lobato confirma que essa percepção corresponde ao processo de composição. O autor não fabricou a personagem como recurso narrativo controlado; deu-lhe espaço de dizer e ria do que ela dizia. A relação é a de quem escreveu uma criatura que escapou do criador, modelo recorrente na literatura infantil que conta — o Pinóquio de Collodi, a Alice de Carroll, o Peter Pan de Barrie. Em Lobato, a peculiaridade é que essa fuga foi cultivada deliberadamente, e que o autor confessa, em correspondência, ser ele mesmo o primeiro divertido pela voz da personagem.
