Os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis, mas assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas
A formulação é uma das mais redondas que Lobato deixou sobre a tarefa editorial. O texto integral é: “Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis, mas assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas.” A frase foi reproduzida na Revista do Serviço Público, volume 12, edição 4, página 30, em 1949, um ano após a morte do autor.
A comparação dos erros tipográficos com sacis tem função dupla. Em primeiro lugar, é piada de editor experiente: o erro que passou despercebido em todas as revisões aparece imediatamente quando o livro chega impresso à mesa, fenômeno conhecido por todos os que trabalharam em produção editorial. Em segundo lugar, a comparação aciona personagem do folclore brasileiro que Lobato havia incorporado ao Sítio do Picapau Amarelo desde “O Saci” (1921). O Saci-Pererê do folclore é figura de uma perna só, com gorro vermelho, que prega peças e some. Os erros editoriais, na imagem lobatiana, são sacis de mesma natureza: aparecem para zombar, mostram a língua e fogem antes que se possa reagir.
A formulação registra um traço da relação de Lobato com o trabalho editorial. O autor que reformou a Companhia Editora Nacional, que brigou pelo livro barato e pela tipografia brasileira, conhecia por dentro a cadeia de produção do livro. A frase sobre sacis é piada, mas é piada de quem viu erros aparecerem em milhões de exemplares já distribuídos pelo país. A imagem é coerente com a tendência geral do autor de tratar processos abstratos por personagens concretos: para Lobato o erro tipográfico ganha figura de saci. A operação retórica é a mesma da pedagogia do “Picapau”, em que a abstração entra por figura.
