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Erro pensar que é a ciência que mata uma religião. Só pode com ela outra religião

A formulação resume tese central da sociologia da religião que circulava no início do século XX, quando o positivismo brasileiro perdia força e os primeiros estudos de Durkheim sobre as formas elementares da vida religiosa começavam a ser lidos no país. Lobato condensa a posição em par de orações: “Erro pensar que é a ciência que mata uma religião. Só pode com ela outra religião.” A frase consta na página 199 das “Obras Completas” da Brasiliense (1946), em fragmento dispersivo cujo contexto original a edição não recompõe.

A tese contraria o ideário cientificista do final do século XIX, ainda hegemônico em parte da intelectualidade brasileira da Primeira República. Para essa tradição, a ciência substituiria progressivamente a religião pela demonstração da inadequação dos dogmas à realidade empírica. Lobato registra que isso não acontece: a religião que é destronada por ciência não é destronada de fato; é destronada quando outra religião, ou outro sistema de crenças com função comparável, ocupa o lugar funcional da primeira.

A argumentação tem parentesco com a leitura tardia de Auguste Comte sobre religião positivista, e antecipa formulações que se tornariam comuns na segunda metade do século na sociologia da religião norte-americana e europeia. Em Lobato a frase circula sem o aparato teórico, como observação seca. A direção da observação é prática: o autor era anticlerical declarado, mas distinguia entre crítica da religião e expectativa de que a crítica racional resolvesse o problema religioso. Nesta frase, registra que a expectativa é equivocada.